UM POUCO DE HISTÓRIA NA CHEGADA DA FESTA DA PADROEIRA DE PARNAMIRIM...


Às vésperas das festividades de Nossa Senhora de Fátima, celebradas anualmente em 13 de maio, a cidade de Parnamirim revive páginas importantes de sua formação religiosa e histórica, profundamente ligadas ao surgimento da fé católica organizada no município e à construção da antiga igreja matriz, símbolo da devoção do povo parnamirinense.

Muito antes da criação oficial da Paróquia de Nossa Senhora de Fátima, ocorrida em 1º de abril de 1952, a então Vila de Parnamirim já demonstrava crescente necessidade de assistência espiritual. O rápido desenvolvimento populacional provocado pela expansão do Campo de Parnamirim e pela presença militar transformava a pequena povoação em um dos núcleos urbanos mais promissores do Rio Grande do Norte. Nesse contexto, surgiu o desejo coletivo de erguer uma igreja que pudesse acolher os católicos da região.

No ano de 1946, o bispo diocesano Dom Marcolino Dantas tomou uma importante iniciativa ao constituir uma comissão encarregada da construção da futura igreja matriz da vila. Inicialmente, o projeto estava ligado à futura freguesia do Senhor do Bonfim, que seria criada na próspera localidade de Parnamirim.

A comissão responsável pela obra era formada por figuras representativas da sociedade local. Assumiu a presidência Josafá Machado, tendo como vice-presidente Manoel de Oliveira Bulhões. O professor Homero de Oliveira Dantas ocupou a função de secretário, enquanto Severino Pedro Nunes tornou-se tesoureiro. Também integravam a comissão o suboficial Luiz Gonzaga de Andrade, Manoel André da Silva, José Pedro da Silva, Luiz Joaquim Barreto, Severino Peregrino Celestino Potiguar, Manoel da Costa Fialho e Francisco Fernandes Pimenta.

A primeira grande reunião da comissão aconteceu em 20 de agosto de 1946, no salão do Grupo Escolar de Parnamirim, reunindo numerosas famílias da vila, que acompanhavam com entusiasmo o nascimento daquele importante projeto religioso. Durante o encontro, discursaram o presidente da comissão, além de Luiz Gonzaga de Andrade, Severino Pedro Nunes e o construtor Malaquias Soares, responsável por apresentar a planta da futura matriz.

O projeto arquitetônico já havia sido analisado e aprovado tanto pelo bispo Dom Marcolino Dantas quanto pela Diretoria de Obras da Prefeitura de Natal. A apresentação da planta foi recebida sob intensos aplausos dos presentes, refletindo a expectativa da população em torno da construção do templo religioso.

Na ocasião, os nomes de Dom Marcolino Dantas e do então prefeito de Natal, Sylvio Pedroza, foram calorosamente aclamados pelos participantes. A reunião também marcou o início oficial da campanha financeira para a construção da igreja, contando com contribuições espontâneas de moradores da comunidade.

Entre os primeiros colaboradores estavam Severino Peregrino da Silva e Genésio Domingos de Oliveira, ambos doando Cr$ 200,00. José Sales e Abílio Paulino da Costa contribuíram com Cr$ 100,00 cada. José Januário de Carvalho e Manoel Camilo Filho ofereceram Cr$ 50,00. José Alexandino participou com Cr$ 25,00, enquanto Antônio Leite Filho, Antônio Pessoa de Carvalho, Julio Bernardo de França e Francisco G. da Costa doaram Cr$ 20,00 cada. Antônio Augusto de Oliveira e Aríete Alexandrino da Silva contribuíram com Cr$ 5,00. Já Maria Alves de Souza realizou doações que totalizaram Cr$ 25,00.

Além dessas quantias, o tesoureiro Severino Pedro Nunes entregou à comissão o valor de Cr$ 1.037,00, importância que já se encontrava arrecadada anteriormente, fazendo com que a soma disponível para o início das obras alcançasse Cr$ 1.827,00 — valor expressivo para a época e que simbolizava o esforço coletivo da população na concretização do sonho da matriz própria.

Paralelamente ao crescimento religioso, Parnamirim vivia também discussões sobre sua autonomia política. Em 1947, uma emenda apresentada pelo monsenhor João da Mata Paiva propunha elevar a vila à condição de município, desligando-a administrativamente de Natal. Apesar das justificativas apresentadas, a proposta acabou rejeitada pela maioria dos deputados estaduais, sob a alegação de que Parnamirim ainda não possuía arrecadação e movimentação econômica suficientes para justificar sua emancipação.

Mesmo assim, a vila continuava crescendo rapidamente. Naquele mesmo ano de 1947, Parnamirim já possuía duas seções eleitorais funcionando no Grupo Escolar Presidente Roosevelt. A 28ª seção contava com 325 eleitores inscritos, enquanto a 29ª registrava 324 votantes, totalizando 649 eleitores — número significativo para uma comunidade ainda em formação.

O crescimento da população tornava cada vez mais urgente a presença permanente da Igreja Católica na localidade. Até então, muitos moradores dependiam da assistência religiosa prestada pela Capelania da Base Aérea de Natal ou da visita ocasional de sacerdotes vindos de outras cidades.

Sensível às necessidades espirituais dos fiéis, Dom Marcolino Dantas aproveitou um encontro com o então ministro da Aeronáutica, brigadeiro Trompowsky, durante uma solenidade do Torneio Aéreo da 2ª Zona, realizada em Natal, para solicitar apoio à construção de uma capela em Parnamirim.

O bispo destacou a importância de oferecer assistência religiosa contínua aos numerosos católicos da vila, especialmente diante do acelerado crescimento populacional e da necessidade de fortalecimento da vida espiritual da comunidade. Segundo registros da época, Dom Marcolino argumentava que a população não podia permanecer dependente apenas da capelania militar, sendo indispensável a existência de uma igreja onde os moradores pudessem participar das missas dominicais, dias santos e demais atos religiosos.

Diante das justificativas apresentadas pelo bispo, o ministro comprometeu-se a colaborar para que Parnamirim tivesse sua própria capela, prevendo-se que, futuramente, ela se transformaria em igreja matriz com a criação oficial da paróquia — algo que efetivamente ocorreria poucos anos depois, acompanhando a marcha progressista da então histórica vila.

Décadas mais tarde, aquela antiga aspiração coletiva consolidar-se-ia como uma das maiores referências religiosas da Grande Natal: a Paróquia de Nossa Senhora de Fátima, símbolo da fé, da memória e da identidade espiritual do povo parnamirinense.

BREVE PASSEIO NA HISTÓRIA DA PARÓQUIA DE NOSSA SENHORA DE FÁTIMA DE PARNAMIRIM/RN...



No próximo dia 13 de maio, Parnamirim volta a viver um dos momentos mais significativos de sua história religiosa e cultural: as festividades de Nossa Senhora de Fátima, padroeira do município e símbolo da fé de milhares de devotos que, geração após geração, mantêm viva uma tradição profundamente ligada à formação espiritual da cidade.

A devoção a Nossa Senhora de Fátima nasceu em Portugal, no ano de 1917, quando ocorreram as célebres aparições marianas na localidade de Cova da Iria, presenciadas pelos pastorinhos Lúcia, Francisco e Jacinta. Em poucas décadas, a devoção espalhou-se pelo mundo católico, chegando também ao Brasil e encontrando forte acolhimento em terras potiguares, especialmente em Parnamirim, cidade que crescia impulsionada pela movimentação da Base Aérea e pela expansão urbana ocorrida ao longo do século XX.

A imagem da Virgem de Fátima na visão dos Pastorinhos - O Catequista

Naquele período, Parnamirim ainda era um núcleo em formação, ligado inicialmente ao município de Nísia Floresta, São José de Mipibu e posteriormente povoado de Natal. As primeiras manifestações católicas organizadas no território que viria a se tornar o município, originalmente vinham por intermédio de engenhos vizinhos, que tinham capelas, a exemplo da Taborda, justamente na baixada, hoje divisa do município. A profusão do catolicismo ocorreu nas décadas de 1930 e 1940, período em que a região passou a receber intenso fluxo populacional em razão da implantação do campo de aviação e, posteriormente, da Base Aérea durante a Segunda Guerra Mundial.

Primeiro templo católico de Parnamirim (permanece com outra função, anexo à atual Matriz)

O crescimento populacional provocado pela presença militar e pela importância estratégica do antigo Campo de Parnamirim, sobretudo durante a Segunda Guerra Mundial, fez surgir a necessidade de uma organização religiosa mais estruturada para atender os moradores da região.


A criação da Paróquia de Nossa Senhora de Fátima ocorreu oficialmente em 1º de abril de 1952, durante o episcopado de Dom Marcolino Dantas, então arcebispo de Natal. A instalação da nova paróquia representou um marco histórico para o município, que consolidava não apenas seu crescimento urbano, mas também sua identidade religiosa.

Monsenhor João Correia de Aquino (in memorian)

O primeiro vigário da recém-criada paróquia foi o padre João Correia de Aquino, considerado o primeiro padre de Parnamirim. Sua atuação tornou-se fundamental na organização da vida católica local, especialmente em um período em que a cidade ainda possuía infraestrutura modesta e poucas instituições estruturadas. Padre João Correia de Aquino exerceu importante papel pastoral junto às famílias, trabalhadores e militares que habitavam a região, fortalecendo a fé católica e incentivando a formação das primeiras comunidades religiosas organizadas do município.

Inicialmente, as celebrações religiosas aconteciam em espaços simples e improvisados, acompanhando o desenvolvimento gradual da cidade. Com o passar dos anos, a necessidade de um templo maior levou à consolidação da Igreja Matriz de Nossa Senhora de Fátima, construída na região central de Parnamirim e transformada em um dos principais símbolos religiosos do município.

A igreja tornou-se ponto de convergência da fé popular, especialmente durante as festividades do mês de maio, quando as ruas da cidade passam a receber procissões, novenas, caminhadas penitenciais e manifestações religiosas que reúnem milhares de pessoas. As comemorações da padroeira passaram a integrar não apenas o calendário religioso, mas também a própria memória afetiva da população parnamirinense.

Ao longo das décadas, diversos sacerdotes deram continuidade ao trabalho iniciado pelo padre João Correia de Aquino. Entre eles destacaram-se párocos que contribuíram para a expansão das comunidades, criação de pastorais sociais, movimentos religiosos e construção de capelas em vários bairros da cidade. A paróquia acompanhou o crescimento urbano de Parnamirim e viu surgir novas comunidades católicas em áreas que antes eram praticamente despovoadas.

Padre Murilo Paiva

Entre os sacerdotes que marcaram profundamente a história recente da paróquia está o padre Antônio Murilo de Paiva, conhecido carinhosamente pelos fiéis como padre Murilo. Além de sua destacada atuação pastoral, padre Murilo também tornou-se reconhecido por sua produção literária e intelectual, sendo autor de livros e textos religiosos voltados à espiritualidade, à reflexão cristã e à evangelização. Durante aproximadamente 28 anos à frente da Paróquia de Nossa Senhora de Fátima, tornou-se uma das figuras religiosas mais queridas e respeitadas de Parnamirim, participando intensamente da vida social, espiritual e cultural da cidade.

No ano de 2025, a Arquidiocese de Natal anunciou uma nova etapa na história da paróquia com a nomeação do padre Paulo Henrique da Silva como novo pároco da Igreja Matriz de Nossa Senhora de Fátima. A nomeação foi oficializada pelo arcebispo metropolitano de Natal, Dom João Santos Cardoso, em março de 2025, sendo recebida com grande expectativa pela comunidade católica parnamirinense.

Posse do Padre Paulo Henrique da Silva

Padre Paulo Henrique da Silva assumiu oficialmente a paróquia sucedendo padre Murilo, dando continuidade ao importante trabalho religioso desenvolvido ao longo de décadas. Sua posse marcou um momento histórico para os fiéis, especialmente por representar a renovação pastoral de uma das mais tradicionais paróquias da Arquidiocese de Natal. Conhecido por sua dedicação sacerdotal, proximidade com as comunidades e atuação evangelizadora, padre Paulo Henrique passou a conduzir os trabalhos pastorais, litúrgicos e sociais da igreja em um período de fortalecimento das atividades religiosas no município.

Durante os anos 1960 e 1970, a festa de Nossa Senhora de Fátima consolidou-se definitivamente como uma das maiores manifestações religiosas do município. As procissões passaram a reunir multidões, enquanto famílias inteiras decoravam ruas e fachadas de casas em homenagem à padroeira. Era comum a realização de quermesses, leilões, apresentações culturais e encontros comunitários ligados às festividades religiosas.

A própria imagem de Nossa Senhora de Fátima tornou-se elemento profundamente presente no cotidiano da cidade. Em muitos lares, repartições públicas e estabelecimentos comerciais, a imagem da santa passou a ocupar lugar de destaque, simbolizando proteção, esperança e fé. Ao longo do tempo, tornou-se tradição a peregrinação da imagem pelas comunidades e instituições locais durante o mês mariano.

A ligação entre Nossa Senhora de Fátima e Parnamirim ultrapassa o aspecto estritamente religioso. A padroeira acompanha simbolicamente o desenvolvimento histórico do município, desde os tempos da antiga vila ligada à aviação militar até a consolidação de Parnamirim como uma das mais importantes cidades do Rio Grande do Norte.

Vila Militar da Aeronáutica, cujas construções tiveram início em 1942 (Hoje estão todas descaracterizadas por falta de um simples olhar).

Atualmente, a Paróquia de Nossa Senhora de Fátima permanece como uma das mais tradicionais da Arquidiocese de Natal, desenvolvendo intenso trabalho pastoral, social e evangelizador. Além das celebrações litúrgicas, a igreja mantém ações voltadas para assistência social, catequese, juventude e apoio às famílias em situação de vulnerabilidade.

À medida que o 13 de maio se aproxima, Parnamirim mais uma vez renova sua devoção àquela que há mais de sete décadas é considerada mãe espiritual do município. Entre sinos, velas, cânticos e procissões, a cidade revive sua história e reafirma a fé em Nossa Senhora de Fátima, cuja presença permanece profundamente entrelaçada à memória, à cultura e à identidade do povo parnamirinense.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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