LICOR DE JENIPAPO...

  


Minha mãe fazia muito licor de maracujá, pequi, guavira (goivira,guabiraba) e jabuticaba. Ela lavava bem as frutas, enxugava, rasgava com as mãos, despedaçando-as e mergulhava numa cachaça boa. Ela usava uma vasilha plástica. Deixava guardada num armário que ficava numa área isolada da casa, de pouco uso, durante seis meses.


Passados os seis meses, ela escoava tudo numa peneira fina, dava umas leves apertadinhas no bagaço para que o álcool bem curtido saísse totalmente e jogava fora. Depois, ela pegava um funil daqueles bem grandes, de zinco, acamava um tufo de algodão (desses que se compra em farmácia) na parte fina do funil, ajeitando bem, mas sem apertá-lo. 


Esse funil tem que ser acomodado numa vasilha onde ficará o líquido pronto, após ser coado lentamente (e bote lentamente nisso) pingando na vasilha de baixo. Às vezes demora considerável tempo, às vezes é mais rápido, mas quanto mais lento, melhor ficará o licor. Sem borra. Depois de coado no algodão era a hora de ela preparar o licor. É simplesmente delicioso!

DETALHE IMPORTANTE: minha mãe e meu pai nunca ingeriram álcool. O licor era para as visitas... Eu já não obedeci minha mãe. Faço e bebo com moderação, inclusive ainda resta por aqui um licor de jabuticaba que fiz há uns dois anos...

Seis meses depois...


PARNAMIRIM: ENTRE ENGENHOS E QUILOMBOS: MEMÓRIAS DA ESCRAVIDÃO E DA RESISTÊNCIA NEGRA NAS TERRAS DE MANOEL MACHADO...


No mês de maio, quando o Brasil relembra a assinatura da Lei Áurea, em 13 de maio de 1888, torna-se indispensável revisitar a memória das antigas terras que hoje formam o município de Parnamirim. Muito antes de sua emancipação política, esse território esteve ligado às jurisdições históricas de São José de Mipibu, Nísia Floresta e, posteriormente, Natal. Entre rios, várzeas e tabuleiros férteis, floresceram antigos engenhos de açúcar que testemunharam simultaneamente a riqueza da aristocracia rural e o sofrimento dos negros escravizados. Ainda restam resquícios de alguns deles e até mesmo ruínas.

Nas terras que hoje pertencem a Parnamirim existiram importantes unidades produtoras ligadas ao ciclo açucareiro potiguar. Entre elas destacavam-se os engenhos Cajupiranga, Pium, Pitimbu e Japecanga, propriedades que, durante décadas, sustentaram a economia regional através da monocultura da cana-de-açúcar. Inclusive há uma antiga chaminé do engenho Cajupiranga que foi preservada como marco histórico dentro da área urbanizada de Cajupiranga, servindo como um dos últimos vestígios materiais do ciclo açucareiro naquela regiãoNessas terras ecoaram os sons das moendas, dos carros de boi e, sobretudo, o labor forçado de homens e mulheres africanos e afrodescendentes submetidos ao regime escravista.

Os antigos engenhos mantinham estreitas relações econômicas e sociais com os núcleos históricos de Papary - atual Nísia Floresta - e de São José de Mipibu, regiões emolduradas por diversos engenhos e por uma terra muito rica. Por essas estradas coloniais transitavam mercadorias, senhores de engenho, mascates, viajantes e também escravizados conduzidos para o trabalho diário nos canaviais. O açúcar produzido nessas propriedades alimentava não apenas a economia provincial, mas também a própria estrutura do sistema escravista no Rio Grande do Norte.

Todavia, a história dessas terras não se resume ao domínio senhorial. Ela também é marcada pela resistência negra. Um dos exemplos mais significativos encontra-se na comunidade quilombola de Moita Verde, localizada em Parnamirim. A formação da comunidade remonta ao ano de 1850, quando antigos moradores do Quilombo Capoeiras, em Macaíba, instalaram-se na região de Moita Verde.

A presença desses quilombolas constitui um dos capítulos mais importantes da resistência afrodescendente na Grande Natal. Vindos de Capoeiras - comunidade reconhecida pela forte ancestralidade negra - os moradores de Moita Verde construíram um território de preservação cultural, solidariedade comunitária e permanência histórica. Ainda hoje, o Quilombo Moita Verde mantém viva a memória de seus antepassados, preservando tradições culturais, religiosas e familiares transmitidas através das gerações. O reconhecimento oficial da comunidade como remanescente quilombola pela Fundação Cultural Palmares reafirma a importância histórica daquele território.

Ao rememorar o mês da abolição, é preciso compreender que a liberdade jurídica conquistada em 1888 não significou igualdade social imediata. Muitos negros libertos permaneceram sem terras, sem acesso à educação e submetidos à pobreza estrutural herdada da escravidão. Ainda assim, resistiram. Formaram comunidades, preservaram suas raízes africanas e contribuíram decisivamente para a formação cultural e humana do Rio Grande do Norte.

Falar da abolição nas terras de Parnamirim é recordar não apenas os antigos engenhos e as famílias senhoriais, mas sobretudo os homens e mulheres negros que construíram aquela região com suor, sofrimento e resistência. Maio deve ser, acima de tudo, um tempo de memória histórica, reconhecimento e reverência aos ancestrais africanos que ajudaram a erguer as bases sociais e culturais das terras potiguares.

ISMAEL DUMANG: “A MÚSICA QUE FAÇO NASCE DA MEMÓRIA E DO SENTIMENTO”


Cantor, compositor, poeta e cordelista, Ismael Dumang é um dos nomes mais autênticos da música autoral potiguar. Nascido em São José de Mipibu no dia 5 de novembro de 1960, filho de Raimundo Nonato de Araújo e Emygdia Alves de Araújo, radicado em Parnamirim desde 1983, cidade onde consolidou grande parte de sua trajetória artística e cultural, o artista construiu uma obra marcada pela poesia, pela valorização das raízes nordestinas e pela recusa em transformar sua arte em produto descartável.

Ao longo de mais de quatro décadas vivendo na “Terra de Manoel Machado”, Ismael Dumang tornou-se também uma referência cultural parnamirinense, mantendo viva uma produção musical profundamente ligada à memória, à sensibilidade poética e à identidade nordestina. Em conversa ao BLOG TRAMPOLIM PARA A VITÓRIA, ele fala sobre infância, memória, religiosidade, literatura de cordel, influências musicais e o compromisso de produzir uma obra que permaneça viva no tempo.


BLOG TRAMPOLIM PARA A VITÓRIA: Ismael, sua trajetória artística nasce muito ligada à memória e às origens. Que lembranças da infância em São José de Mipibu ainda permanecem mais fortes em você?


ISMAEL DUMANG: Permanecem muitas coisas. A rua, os engenhos, as brincadeiras de infância, as radiolas, os parques, o som das músicas chegando pelas janelas das casas… Tudo isso ficou muito vivo dentro de mim. Eu costumo dizer que minha música nasce justamente desse universo de lembranças. A infância no interior deixa marcas profundas. O rádio teve uma importância enorme na minha formação. Eu ouvia de tudo: hinos religiosos, música sertaneja, Roberto Carlos, canções românticas. Aquilo foi formando minha sensibilidade sem que eu percebesse.


BLOG TRAMPOLIM PARA A VITÓRIA: Sua história de vida também é marcada pela descoberta da adoção. De alguma forma, isso influenciou sua arte?


ISMAEL DUMANG: Influenciou muito. Quando a gente descobre certas coisas sobre a própria origem, passa a olhar para a vida de outra maneira. Acho que isso aprofundou em mim uma necessidade maior de pertencimento, de entender as raízes, de compreender os afetos. Minha música fala muito sobre memória, identidade, reencontro, saudade… Talvez venha justamente daí. A arte, muitas vezes, acaba sendo uma maneira de organizar emoções.


BLOG TRAMPOLIM PARA A VITÓRIA: Você costuma citar influências muito diversas, que vão desde os hinos da igreja até Belchior e Alceu Valença. Como essas referências convivem dentro da sua música?


ISMAEL DUMANG: Convivem naturalmente. A música que escutei na infância nunca saiu de mim. Os hinos da igreja têm uma dramaticidade muito forte, uma intensidade emocional muito grande. Depois vieram Belchior, Fagner, Alceu Valença, que me mostraram uma música mais poética, mais elaborada. Mas tudo isso foi se somando. Nunca tive preocupação em seguir uma linha fechada. Minha música é resultado das experiências que vivi e das sonoridades que me tocaram ao longo da vida.


BLOG TRAMPOLIM PARA A VITÓRIA: Em suas composições existe uma preocupação muito forte com a palavra. Isso vem da convivência com o cordel e a poesia popular?


ISMAEL DUMANG: Sem dúvida. Quando comecei a estudar mais profundamente a literatura de cordel e as estruturas dos repentistas, passei a compreender melhor o peso da métrica, da rima, do ritmo interno dos versos. O cordel ensina disciplina poética. Ensina que a palavra precisa soar bem, carregar musicalidade. Tenho muito cuidado com isso. Gosto de lapidar a letra, procurar a frase certa, encontrar o encaixe exato entre palavra e melodia.


BLOG TRAMPOLIM PARA A VITÓRIA: Há quem diga que suas músicas possuem um sentimento muito telúrico, muito ligado à terra e às raízes nordestinas. Você concorda?


ISMAEL DUMANG: Concordo. Acho que não conseguiria fugir disso, porque faz parte de quem sou. Os engenhos, as ruas de Mipibu, as igrejas, as paisagens humanas do interior… tudo isso habita minha memória afetiva. Mesmo quando a música fala de sentimentos universais, existe sempre esse chão nordestino sustentando a composição. É algo natural.


BLOG TRAMPOLIM PARA A VITÓRIA: Você é frequentemente apontado como um artista que nunca cede aos modismos. Em tempos de músicas produzidas rapidamente para consumo imediato, como você enxerga isso?


ISMAEL DUMANG: : Eu respeito todos os estilos e todas as formas de fazer música, mas nunca consegui criar pensando em tendência ou mercado. Minha preocupação sempre foi fazer algo verdadeiro. Acho que a arte precisa ter permanência. Não gosto da ideia de música descartável. Gosto de compor algo que continue fazendo sentido daqui a muitos anos. Talvez isso torne o caminho mais difícil, mas também mais honesto comigo mesmo.


BLOG TRAMPOLIM PARA A VITÓRIA: Sua música parece buscar mais do que entretenimento. Existe uma intenção consciente de provocar reflexão?


ISMAEL DUMANG: Sim. A música pode emocionar, provocar lembranças, despertar reflexões. Não penso na canção apenas como distração. Gosto quando uma letra toca alguém profundamente, quando desperta memória ou sentimento. Acho que a arte tem essa capacidade de permanecer dentro das pessoas.


BLOG TRAMPOLIM PARA A VITÓRIA: O álbum Terra de Engenhos é considerado por muitos uma homenagem afetiva à sua cidade natal. Qual o significado desse trabalho para você?


ISMAEL DUMANG: É um trabalho muito especial porque reúne exatamente esse universo afetivo que me acompanha desde menino. Falar de São José de Mipibu é falar das minhas origens, das pessoas que fizeram parte da minha história, das paisagens que me formaram emocionalmente. Foi uma maneira de transformar memória em música.


BLOG TRAMPOLIM PARA A VITÓRIA: E como você vê a cena musical potiguar atualmente?


ISMAEL DUMANG: Vejo muitos artistas talentosos produzindo coisas interessantes. O Rio Grande do Norte sempre teve uma riqueza cultural enorme. O problema, muitas vezes, é a falta de espaço e incentivo. Mas existe uma geração muito boa surgindo, fazendo música autoral, valorizando identidade cultural. Isso é importante.


BLOG TRAMPOLIM PARA A VITÓRIA: Além da carreira artística, você também participa de projetos culturais e educacionais. Qual a importância desse trabalho?


ISMAEL DUMANG: Acho fundamental. A cultura precisa circular, alcançar os jovens, formar novos ouvintes e novos artistas. Quando participo de festivais estudantis ou projetos culturais, sinto que estou contribuindo para manter viva essa corrente da música e da poesia. A arte transforma pessoas.


BLOG TRAMPOLIM PARA A VITÓRIA: Depois de tantos anos de trajetória, o que ainda move Ismael Dumangue?


ISMAEL DUMANG: A emoção de criar. Enquanto eu tiver algo para dizer através da música, continuo compondo. A arte ainda me emociona profundamente. E talvez seja justamente isso que mantém tudo vivo: a capacidade de transformar experiências humanas em canção.


BLOG TRAMPOLIM PARA A VITÓRIA: Para encerrar: como você gostaria que sua obra fosse lembrada no futuro?


ISMAEL DUMANG: Gostaria que fosse lembrada como uma obra sincera. Uma música feita com verdade, respeito à poesia e amor pela cultura nordestina. Se minhas canções conseguirem permanecer na memória afetiva das pessoas, já me sinto realizado.

UM POUCO DE HISTÓRIA NA CHEGADA DA FESTA DA PADROEIRA DE PARNAMIRIM...


Às vésperas das festividades de Nossa Senhora de Fátima, celebradas anualmente em 13 de maio, a cidade de Parnamirim revive páginas importantes de sua formação religiosa e histórica, profundamente ligadas ao surgimento da fé católica organizada no município e à construção da antiga igreja matriz, símbolo da devoção do povo parnamirinense.

Muito antes da criação oficial da Paróquia de Nossa Senhora de Fátima, ocorrida em 1º de abril de 1952, a então Vila de Parnamirim já demonstrava crescente necessidade de assistência espiritual. O rápido desenvolvimento populacional provocado pela expansão do Campo de Parnamirim e pela presença militar transformava a pequena povoação em um dos núcleos urbanos mais promissores do Rio Grande do Norte. Nesse contexto, surgiu o desejo coletivo de erguer uma igreja que pudesse acolher os católicos da região.

No ano de 1946, o bispo diocesano Dom Marcolino Dantas tomou uma importante iniciativa ao constituir uma comissão encarregada da construção da futura igreja matriz da vila. Inicialmente, o projeto estava ligado à futura freguesia do Senhor do Bonfim, que seria criada na próspera localidade de Parnamirim.

A comissão responsável pela obra era formada por figuras representativas da sociedade local. Assumiu a presidência Josafá Machado, tendo como vice-presidente Manoel de Oliveira Bulhões. O professor Homero de Oliveira Dantas ocupou a função de secretário, enquanto Severino Pedro Nunes tornou-se tesoureiro. Também integravam a comissão o suboficial Luiz Gonzaga de Andrade, Manoel André da Silva, José Pedro da Silva, Luiz Joaquim Barreto, Severino Peregrino Celestino Potiguar, Manoel da Costa Fialho e Francisco Fernandes Pimenta.

A primeira grande reunião da comissão aconteceu em 20 de agosto de 1946, no salão do Grupo Escolar de Parnamirim, reunindo numerosas famílias da vila, que acompanhavam com entusiasmo o nascimento daquele importante projeto religioso. Durante o encontro, discursaram o presidente da comissão, além de Luiz Gonzaga de Andrade, Severino Pedro Nunes e o construtor Malaquias Soares, responsável por apresentar a planta da futura matriz.

O projeto arquitetônico já havia sido analisado e aprovado tanto pelo bispo Dom Marcolino Dantas quanto pela Diretoria de Obras da Prefeitura de Natal. A apresentação da planta foi recebida sob intensos aplausos dos presentes, refletindo a expectativa da população em torno da construção do templo religioso.

Na ocasião, os nomes de Dom Marcolino Dantas e do então prefeito de Natal, Sylvio Pedroza, foram calorosamente aclamados pelos participantes. A reunião também marcou o início oficial da campanha financeira para a construção da igreja, contando com contribuições espontâneas de moradores da comunidade.

Entre os primeiros colaboradores estavam Severino Peregrino da Silva e Genésio Domingos de Oliveira, ambos doando Cr$ 200,00. José Sales e Abílio Paulino da Costa contribuíram com Cr$ 100,00 cada. José Januário de Carvalho e Manoel Camilo Filho ofereceram Cr$ 50,00. José Alexandino participou com Cr$ 25,00, enquanto Antônio Leite Filho, Antônio Pessoa de Carvalho, Julio Bernardo de França e Francisco G. da Costa doaram Cr$ 20,00 cada. Antônio Augusto de Oliveira e Aríete Alexandrino da Silva contribuíram com Cr$ 5,00. Já Maria Alves de Souza realizou doações que totalizaram Cr$ 25,00.

Além dessas quantias, o tesoureiro Severino Pedro Nunes entregou à comissão o valor de Cr$ 1.037,00, importância que já se encontrava arrecadada anteriormente, fazendo com que a soma disponível para o início das obras alcançasse Cr$ 1.827,00 — valor expressivo para a época e que simbolizava o esforço coletivo da população na concretização do sonho da matriz própria.

Paralelamente ao crescimento religioso, Parnamirim vivia também discussões sobre sua autonomia política. Em 1947, uma emenda apresentada pelo monsenhor João da Mata Paiva propunha elevar a vila à condição de município, desligando-a administrativamente de Natal. Apesar das justificativas apresentadas, a proposta acabou rejeitada pela maioria dos deputados estaduais, sob a alegação de que Parnamirim ainda não possuía arrecadação e movimentação econômica suficientes para justificar sua emancipação.

Mesmo assim, a vila continuava crescendo rapidamente. Naquele mesmo ano de 1947, Parnamirim já possuía duas seções eleitorais funcionando no Grupo Escolar Presidente Roosevelt. A 28ª seção contava com 325 eleitores inscritos, enquanto a 29ª registrava 324 votantes, totalizando 649 eleitores — número significativo para uma comunidade ainda em formação.

O crescimento da população tornava cada vez mais urgente a presença permanente da Igreja Católica na localidade. Até então, muitos moradores dependiam da assistência religiosa prestada pela Capelania da Base Aérea de Natal ou da visita ocasional de sacerdotes vindos de outras cidades.

Sensível às necessidades espirituais dos fiéis, Dom Marcolino Dantas aproveitou um encontro com o então ministro da Aeronáutica, brigadeiro Trompowsky, durante uma solenidade do Torneio Aéreo da 2ª Zona, realizada em Natal, para solicitar apoio à construção de uma capela em Parnamirim.

O bispo destacou a importância de oferecer assistência religiosa contínua aos numerosos católicos da vila, especialmente diante do acelerado crescimento populacional e da necessidade de fortalecimento da vida espiritual da comunidade. Segundo registros da época, Dom Marcolino argumentava que a população não podia permanecer dependente apenas da capelania militar, sendo indispensável a existência de uma igreja onde os moradores pudessem participar das missas dominicais, dias santos e demais atos religiosos.

Diante das justificativas apresentadas pelo bispo, o ministro comprometeu-se a colaborar para que Parnamirim tivesse sua própria capela, prevendo-se que, futuramente, ela se transformaria em igreja matriz com a criação oficial da paróquia — algo que efetivamente ocorreria poucos anos depois, acompanhando a marcha progressista da então histórica vila.

Décadas mais tarde, aquela antiga aspiração coletiva consolidar-se-ia como uma das maiores referências religiosas da Grande Natal: a Paróquia de Nossa Senhora de Fátima, símbolo da fé, da memória e da identidade espiritual do povo parnamirinense.

BREVE PASSEIO NA HISTÓRIA DA PARÓQUIA DE NOSSA SENHORA DE FÁTIMA DE PARNAMIRIM/RN...



No próximo dia 13 de maio, Parnamirim volta a viver um dos momentos mais significativos de sua história religiosa e cultural: as festividades de Nossa Senhora de Fátima, padroeira do município e símbolo da fé de milhares de devotos que, geração após geração, mantêm viva uma tradição profundamente ligada à formação espiritual da cidade.

A devoção a Nossa Senhora de Fátima nasceu em Portugal, no ano de 1917, quando ocorreram as célebres aparições marianas na localidade de Cova da Iria, presenciadas pelos pastorinhos Lúcia, Francisco e Jacinta. Em poucas décadas, a devoção espalhou-se pelo mundo católico, chegando também ao Brasil e encontrando forte acolhimento em terras potiguares, especialmente em Parnamirim, cidade que crescia impulsionada pela movimentação da Base Aérea e pela expansão urbana ocorrida ao longo do século XX.

A imagem da Virgem de Fátima na visão dos Pastorinhos - O Catequista

Naquele período, Parnamirim ainda era um núcleo em formação, ligado inicialmente ao município de Nísia Floresta, São José de Mipibu e posteriormente povoado de Natal. As primeiras manifestações católicas organizadas no território que viria a se tornar o município, originalmente vinham por intermédio de engenhos vizinhos, que tinham capelas, a exemplo da Taborda, justamente na baixada, hoje divisa do município. A profusão do catolicismo ocorreu nas décadas de 1930 e 1940, período em que a região passou a receber intenso fluxo populacional em razão da implantação do campo de aviação e, posteriormente, da Base Aérea durante a Segunda Guerra Mundial.

Primeiro templo católico de Parnamirim (permanece com outra função, anexo à atual Matriz)

O crescimento populacional provocado pela presença militar e pela importância estratégica do antigo Campo de Parnamirim, sobretudo durante a Segunda Guerra Mundial, fez surgir a necessidade de uma organização religiosa mais estruturada para atender os moradores da região.


A criação da Paróquia de Nossa Senhora de Fátima ocorreu oficialmente em 1º de abril de 1952, durante o episcopado de Dom Marcolino Dantas, então arcebispo de Natal. A instalação da nova paróquia representou um marco histórico para o município, que consolidava não apenas seu crescimento urbano, mas também sua identidade religiosa.

Monsenhor João Correia de Aquino (in memorian)

O primeiro vigário da recém-criada paróquia foi o padre João Correia de Aquino, considerado o primeiro padre de Parnamirim. Sua atuação tornou-se fundamental na organização da vida católica local, especialmente em um período em que a cidade ainda possuía infraestrutura modesta e poucas instituições estruturadas. Padre João Correia de Aquino exerceu importante papel pastoral junto às famílias, trabalhadores e militares que habitavam a região, fortalecendo a fé católica e incentivando a formação das primeiras comunidades religiosas organizadas do município.

Inicialmente, as celebrações religiosas aconteciam em espaços simples e improvisados, acompanhando o desenvolvimento gradual da cidade. Com o passar dos anos, a necessidade de um templo maior levou à consolidação da Igreja Matriz de Nossa Senhora de Fátima, construída na região central de Parnamirim e transformada em um dos principais símbolos religiosos do município.

A igreja tornou-se ponto de convergência da fé popular, especialmente durante as festividades do mês de maio, quando as ruas da cidade passam a receber procissões, novenas, caminhadas penitenciais e manifestações religiosas que reúnem milhares de pessoas. As comemorações da padroeira passaram a integrar não apenas o calendário religioso, mas também a própria memória afetiva da população parnamirinense.

Ao longo das décadas, diversos sacerdotes deram continuidade ao trabalho iniciado pelo padre João Correia de Aquino. Entre eles destacaram-se párocos que contribuíram para a expansão das comunidades, criação de pastorais sociais, movimentos religiosos e construção de capelas em vários bairros da cidade. A paróquia acompanhou o crescimento urbano de Parnamirim e viu surgir novas comunidades católicas em áreas que antes eram praticamente despovoadas.

Padre Murilo Paiva

Entre os sacerdotes que marcaram profundamente a história recente da paróquia está o padre Antônio Murilo de Paiva, conhecido carinhosamente pelos fiéis como padre Murilo. Além de sua destacada atuação pastoral, padre Murilo também tornou-se reconhecido por sua produção literária e intelectual, sendo autor de livros e textos religiosos voltados à espiritualidade, à reflexão cristã e à evangelização. Durante aproximadamente 28 anos à frente da Paróquia de Nossa Senhora de Fátima, tornou-se uma das figuras religiosas mais queridas e respeitadas de Parnamirim, participando intensamente da vida social, espiritual e cultural da cidade.

No ano de 2025, a Arquidiocese de Natal anunciou uma nova etapa na história da paróquia com a nomeação do padre Paulo Henrique da Silva como novo pároco da Igreja Matriz de Nossa Senhora de Fátima. A nomeação foi oficializada pelo arcebispo metropolitano de Natal, Dom João Santos Cardoso, em março de 2025, sendo recebida com grande expectativa pela comunidade católica parnamirinense.

Posse do Padre Paulo Henrique da Silva

Padre Paulo Henrique da Silva assumiu oficialmente a paróquia sucedendo padre Murilo, dando continuidade ao importante trabalho religioso desenvolvido ao longo de décadas. Sua posse marcou um momento histórico para os fiéis, especialmente por representar a renovação pastoral de uma das mais tradicionais paróquias da Arquidiocese de Natal. Conhecido por sua dedicação sacerdotal, proximidade com as comunidades e atuação evangelizadora, padre Paulo Henrique passou a conduzir os trabalhos pastorais, litúrgicos e sociais da igreja em um período de fortalecimento das atividades religiosas no município.

Durante os anos 1960 e 1970, a festa de Nossa Senhora de Fátima consolidou-se definitivamente como uma das maiores manifestações religiosas do município. As procissões passaram a reunir multidões, enquanto famílias inteiras decoravam ruas e fachadas de casas em homenagem à padroeira. Era comum a realização de quermesses, leilões, apresentações culturais e encontros comunitários ligados às festividades religiosas.

A própria imagem de Nossa Senhora de Fátima tornou-se elemento profundamente presente no cotidiano da cidade. Em muitos lares, repartições públicas e estabelecimentos comerciais, a imagem da santa passou a ocupar lugar de destaque, simbolizando proteção, esperança e fé. Ao longo do tempo, tornou-se tradição a peregrinação da imagem pelas comunidades e instituições locais durante o mês mariano.

A ligação entre Nossa Senhora de Fátima e Parnamirim ultrapassa o aspecto estritamente religioso. A padroeira acompanha simbolicamente o desenvolvimento histórico do município, desde os tempos da antiga vila ligada à aviação militar até a consolidação de Parnamirim como uma das mais importantes cidades do Rio Grande do Norte.

Vila Militar da Aeronáutica, cujas construções tiveram início em 1942 (Hoje estão todas descaracterizadas por falta de um simples olhar).

Atualmente, a Paróquia de Nossa Senhora de Fátima permanece como uma das mais tradicionais da Arquidiocese de Natal, desenvolvendo intenso trabalho pastoral, social e evangelizador. Além das celebrações litúrgicas, a igreja mantém ações voltadas para assistência social, catequese, juventude e apoio às famílias em situação de vulnerabilidade.

À medida que o 13 de maio se aproxima, Parnamirim mais uma vez renova sua devoção àquela que há mais de sete décadas é considerada mãe espiritual do município. Entre sinos, velas, cânticos e procissões, a cidade revive sua história e reafirma a fé em Nossa Senhora de Fátima, cuja presença permanece profundamente entrelaçada à memória, à cultura e à identidade do povo parnamirinense.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

PEIXOTO, Carlos. A História de Parnamirim. Natal: Z Comunicação, 2003. 222 p.

ARQUIDIOCESE DE NATAL. Dom Marcolino Dantas e seu longo pastoreio. Natal, 2024.

CASCUDO, Luís da Câmara. História da Cidade do Natal. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira/UFRN/INL-MEC, 1980.

CASCUDO, Luís da Câmara. História do Rio Grande do Norte. Rio de Janeiro: MEC, 1955.

MARIZ, Marlene da Silva; SUASSUNA, Luiz Eduardo Brandão. História do Rio Grande do Norte. Natal: Sebo Vermelho, 2005.

MEDEIROS, José Geraldo Rodrigues de. Parnamirim: A Cidade que Mais Cresce no RN – Estudos Sociais do Município de Parnamirim (RN). Natal, 1999.

MEDEIROS, Tarcísio. Aspectos Geopolíticos e Antropológicos da História do Rio Grande do Norte. Natal: Imprensa Universitária, 1973.

OLIVEIRA, Francisco Isaac D. de. “Desbravando o planalto: de uma pista para aviões nasce Parnamirim”. Revista Galo, ano 1, n. 1, 2020.

ARAÚJO, Glaucia Dias Costa de. Debaixo da sombra do Trampolim da Vitória: história local, ensino e memória histórica em Parnamirim-RN. Dissertação de Mestrado. Universidade Federal do Rio Grande do Norte, 2020.

GUIMARÃES, Karla. Parnamirim: a história local como ferramenta didática para o ensino fundamental II. Universidade de Pernambuco, 2022.

SILVA, Alda Nunes Freire da. Parnamirim: História de uma Cidade. Monografia apresentada à Universidade Potiguar, 2006.

PINTO, Lenine. Natal, USA. Natal: RN Econômico, 1995.

SMITH JR., Clyde. Trampolim para a Vitória. Natal: UFRN, 1993.



 DOM CARDOSO: UM APARTE...

Sempre entendi que devemos valorizar o artista local em todas as áreas. Contudo, em um país no qual, infelizmente, a arte é tratada como luxo e até mesmo como algo supérfluo - salvas as exceções - não é estranho que o próprio povo desconheça algumas de suas pratas da casa. Sabendo disso, urge que todos nós, os que escrevemos, os que educamos, os que promovemos cultura, encontremos alternativas inteligentes para dar visibilidade aos nossos músicos, artistas plásticos, teatrólogos, bailarinos, enfim, a todos os que dedicam a vida à arte, principalmente ao público infantil e adolescente, que desconhece quase por completo a arte norte-rio-grandense.

Um caminho possível é a escola de educação infantil e de ensino fundamental, bem como as escolas de música regionais, sejam da UFRN, sejam particulares, municipais ou estaduais. Se cada professor trabalhar os nomes dos artistas locais, eles se tornarão conhecidos. Basta selecionar três obras de cada um e torná-las presentes no universo dos alunos: utilizá-las no pátio, na gincana, na sala de aula, em um festival musical, em uma galeria, no palco da escola, no auditório da cidade, enfim, onde for possível.

O gosto nasce do conhecimento. Se o aluno aprende que existe determinado artista e conhece, por exemplo, três de suas partituras ou músicas, três de suas peças teatrais ou três de suas pinturas, o interesse será despertado e o cenário começará a mudar. O passo seguinte é convidar esses artistas para uma apresentação na escola, ocasião em que eles ficarão felizes ao ver os alunos interagindo com sua arte. E essa interação acontecerá porque houve aproximação: aprenderam a gostar do artista, e sua arte lhes tornou-se familiar. Essa é a única receita para tornar o artistas respeitado, pois ser respeitado, é ser reconhecido.


LICOR DE JENIPAPO...

    Minha mãe fazia muito licor de maracujá, pequi, guavira (goivira,guabiraba) e jabuticaba. Ela lavava bem as frutas, enxugava, rasgava co...