QUANDO A FAMÍLIA FALHA, É NO JARDIM DA INFÂNCIA QUE O MENINO COMEÇA A RESPEITAR A IMAGEM FEMININA...

 


NO DIA INTERNACIONAL DA MULHER É PRECISO PENSAR...
Hoje li sobre dois feminicídios que aconteceram no Mato Grosso do Sul, estado do meu nascimento, ironicamente no Dia Internacional da Mulher. Confesso que, por mais constrangedor que pareça, às vezes penso que a Lei Maria da Penha e todas as formas institucionais vistas nos últimos anos, abordando reflexões sobre o respeito necessário à mulher - inclusive a data de hoje - não tem sido tão eficientes, pois todos os dias vemos nas redes sociais diversas formas de violência contra a mulher, inclusive feminicídios quase que diariamente. Esse horror parece normalizado.
As estatísticas oficiais e os levantamentos de organizações da sociedade civil apontam que o feminicídio permanece como uma chaga no Brasil, uma violência que não cessa e que se concentra nas periferias, nas casas e nas ruas por onde circulam nossas filhas, irmãs, mães, amigas. No Rio Grande do Norte, e em especial em Natal, esses números e relatos ecoam com violência própria: famílias destroçadas, vizinhanças assombradas, uma sensação coletiva de vulnerabilidade que não podemos naturalizar. É urgente lembrar que cada número é um corpo, uma história interrompida.
Escrevi, em 2024, um espetáculo intitulado NISIA FLORESTA BRASILEIRAS AUGUSTAS; seu enredo tentou dialogar com essa ferida, revisitar Nísia Floresta, sua coragem e sua voz desde 1832, para perguntar ao presente por que a igualdade ainda tarda. Nísia ensinou que questionar a ordem era já uma forma de amor. Bertha Lutz, décadas depois, empilhou argumentos científicos e políticos que ajudaram a abrir lacunas nas estruturas; hoje encontramos teóricas e ativistas contemporâneas, como Rita Segato, que analisa a raiz da violência patriarcal; Flávia Biroli, que pensa gênero e democracia; e outras intelectuais que oferecem ferramentas para compreender e agir, apontando não apenas culpados, mas sistemas que reproduzem a violência.
Há algo muito errado nessa história e precisamos saber o que é para consertar. Na minha santa ignorância, observo que as leis e, consequentemente, as punições são eficientes. A própria Lei Maria da Penha é exemplo até para outros países, mas ela precisa andar de braços dados com algo que parece estar esquecido. Me refiro à educação, ou melhor, às escolas. É necessário um projeto pedagógico que aborde o necessário respeito às meninas a partir do jardim da infância. Os meninos precisam ser provocados a entender que todos merecem respeito, tanto eles (por parte das meninas) quanto as meninas (por parte deles). Esse assunto precisa urgentemente estar dentro de todas as salas de aula.
A sociedade, e por consequência, as crianças, tem recebido os resquícios de uma educação patriarcal do século XX, pautada pela ideia equivocada de que a mulher é um ser inferior, e isso, por si, instiga o menino que, desde pequeno, já massacra a menina. E assim massacrará a mulher adulta. A menina cresce com medo dos meninos, sendo orientada pela mãe, a tomar cuidado com os meninos, como se menino fosse sinônimo de ser um ser depravado, violento, perigoso. E as mães não estão erradas de todo, pois infelizmente, é grande a parcela de casos, cujos homens agridem, violentam e matam.
Eu e meus irmãos, por exemplo, éramos orientados pelo meu pai a não nos demorarmos na cozinha, pois era lugar de mulher. Ora! Justo a cozinha, um lugar tão aconchegante, cheiroso, cheio de sabores, cheiros, calor humano e conversas demoradas. Pois bem, meu pai não gostava que ficássemos ali, mas, aos poucos, tornando-nos adolescentes, fomos quebrando a regra, ajudando nossa mãe a fazer pão, doces, licores, enfim, lavando louça, lavando a cozinha etc. E assim, naturalmente, fomos desconstruindo esse machismo desnecessário do nosso pai. E, obviamente, que ele fingia que não via, afinal não havia nada de errado em estar na cozinha ajudando a mãe. Creio que o que ajudou também essa desconstrução foram as guloseimas que ele se deliciava depois . Meu pai não era violento com nossa mãe. Apenas não gostava de homem na cozinha. Ele nasceu em 1924 (há 102 anos), portanto herdou uma educação do século XIX. Imagine a educação!
O que estranho é estarmos em pleno século XXI e vermos pessoas com a mente parada nos séculos passados, praticando violência psicológica, física e até feminicídio. Isso não é normal e precisa ser combatido. A mesma eficiência da Lei Maria da Penha precisa estar presente nas escolas, nos anos iniciais. O assunto deve ser abordado sem medo, pois é na infância que a criança está construindo o seu alicerce. E alicerce firme e bem feito é alicerce em que a criança é civilizada. Um homem civilizado respeita a mulher.
O menino deve aprender a respeitar a amiguinha, a irmã, a mãe, a tia, a avó, a vizinha e, depois, adolescente, respeitar a namorada e a esposa. Um menino educado a ser civilizado com as meninas se tornará um marido que respeitará a mulher como esposa, como profissional, como namorada e tudo mais. O homem civilizado terá consciência de que a namorada ou a esposa não lhe pertence e que ele deve respeitar seus gostos pessoais e sua decisão, inclusive o rompimento de um namoro ou casamento, assim como a mulher deve agir da mesma forma com relação ao homem. Um problema comum, ultimamente, é justamente o contrário disso, cujo homem mata a mulher porque ela decidiu por fim ao relacionamento amoroso. Isso é de uma estupidez sem tamanho.
Vejo também um fato curioso que ora ocorre. Refiro-me ao próprio presidente da república levando esse assunto para onde vai, abordando-o seja numa feira agropecuária, na entrega de casas, numa reunião com empresários etc. Uma espécie de bandeira. Isso não é ruim, mas assinala que a atual realidade da mulher preocupa. Isso, além de significar preocupação, sinaliza que o país inteiro está sendo forçado a olhar para um problema que cresce. Mas, admitamos, o discurso público não substitui políticas públicas educativas profundas, tampouco a construção de políticas contra violência contra as meninas a partir dos anos iniciais, portanto, dentro das escolas. Precisamos que o Estado e a sociedade invistam em formação docente, em materiais pedagógicos, em projetos transversais que trabalhem empatia, respeito e responsabilização desde os primeiros anos.
Por fim, lembro que a luta por direitos não é apenas legal, é cultural. Celebrar Nísia Floresta e lembrar Bertha Lutz é também chamar à ação: a escola, a família, os museus, os teatros, o próprio ato de contar histórias como fiz no espetáculo, devem ser arenas onde se planta outra forma de conviver. Não podemos aceitar que o horror se naturalize. Exigir leis e punir é necessário; semear respeito e humanidade desde a infância é imprescindível. E a escola é o panteão maior da civilidade, portanto o elejamos como local de ensinar o amor entre meninos e meninas e vice versa. Só assim construiremos uma sociedade onde a vida das mulheres não seja risco cotidiano, e onde Natal, o Rio Grande do Norte e todo o Brasil deixem de contabilizar tragédias para começar a contar histórias de igualdade e cuidado.
Elaborei um projeto - nesses moldes - e o enviarei para a Câmara Municipal de Natal, para a Câmara Fedral e Senado. É certo que é na família que recebemos a educação de berço, onde aprendemos a ser pessoas civilizadas, mas em existindo a Lei Maria da Penha, que pune exemplarmente cidadãos que não foram bem educados na infância, e que absorveram a ideia errônea sobre amulher, não seria incorreto que os jardins de infância andassem de mãos dadas com Maria da Penha.

QUANDO A FAMÍLIA FALHA, É NO JARDIM DA INFÂNCIA QUE O MENINO COMEÇA A RESPEITAR A IMAGEM FEMININA.

ROSTOS DA HISTÓRIA: TRABALHADORES DA BASE AÉREA NA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL...

 

Na fotografia que inspira este texto estão alguns brasileiros que trabalharam na Base Aérea de Natal durante a Segunda Guerra Mundial. Da esquerda para a direita: Sra. Olinda, Zacarias Souza, Geraldo Nascimento, Washington Ferreira, José Epifânio (Jota Epifânio), Nair Góes, Rodolfo Lima, Cunha e Rui Marinho. Rostos que representam uma geração de trabalhadores parnamirinenses e natalenses que, em meio a um conflito de dimensões globais, ajudaram a sustentar um dos mais importantes pontos estratégicos do Atlântico Sul.

Na década de 1940, com a instalação da base norte-americana em Parnamirim, então distrito de Natal, a região tornou-se elo fundamental na chamada “rota da vitória”, que ligava as Américas à África e à Europa. A posição geográfica privilegiada do Rio Grande do Norte transformou Natal em centro logístico internacional. Milhares de aeronaves passaram por Parnamirim Field, consolidando a cidade como ponto estratégico decisivo para os Aliados.

Entretanto, por trás das pistas e dos hangares estavam trabalhadores brasileiros - vindos predominantemente do interior do Rio Grande do Norte e do vizinho estado da Paraíbas -, que garantiam o funcionamento da Base. Eram homens e mulheres em funções administrativas, operacionais e de apoio, cuja dedicação silenciosa ajudou não apenas no esforço de guerra, mas também no desenvolvimento urbano, econômico e social da região. O impacto foi profundo: infraestrutura, empregos e circulação de pessoas aceleraram o crescimento do antigo distrito, contribuindo diretamente para o surgimento e fortalecimento do município de Parnamirim.

Jota Epifânio

Entre os nomes retratados, destaca-se José Epifânio, conhecido como Jota Epifânio, vindo de Nova Cruz, nascido no dia 23 de setembro de 1927. Após sua atuação na Base Aérea de Natal, construiu trajetória marcante como colunista social em Natal. Até meados dos anos 1970, esteve lotado no Comando da Base - CATRE, como Relações Públicas, função estratégica na comunicação institucional. Paralelamente, tornou-se um dos nomes conhecidos da crônica social potiguar, assinando coluna no jornal Tribuna do Norte, onde registrava eventos, personagens e acontecimentos da vida social natalense.

Sua escrita ajudou a documentar uma época, preservando memórias da sociedade local em transformação. Jota Epifânio não foi apenas testemunha do crescimento de Natal e Parnamirim, ele também foi narrador desse processo, deixando registros que hoje servem como fonte para pesquisadores e interessados na história cultural do Rio Grande do Norte. Jota Epifânio faleceu no dia 31 de dezembro de 1999, aos 72 anos.

Até o momento, o maior volume de informações levantadas refere-se justamente a Jota Epifânio, razão pela qual sua trajetória recebe maior destaque neste texto. Sobre os demais fotografados, ainda estamos reunindo dados que permitam reconstruir com mais precisão suas histórias pessoais e profissionais. Cada nova informação representa um passo importante para completar este registro histórico.

Esta publicação tem também um propósito claro: estou buscando identificar e confirmar dados sobre as pessoas retratadas, para que o álbum histórico fique completo. Resgatar nomes, funções e trajetórias é uma forma de reconhecimento. É devolver visibilidade àqueles que contribuíram, com trabalho e dedicação, para um momento decisivo da história regional e mundial.

Ao contemplarmos esta imagem, vemos mais do que funcionários de uma base militar em tempos de guerra. Vemos cidadãos comuns que participaram de um capítulo extraordinário. Trabalhadores que ajudaram a moldar o destino de Parnamirim e que, mesmo sem saber, inscreveram seus nomes no livro da História.L.C.F. Sócio Efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte - IHGRN.


MORRE SEVERINO VICENTE: UM MONUMENTO DO RIO GRANDE DO NORTE...

 


Hoje foi um dia muito difícil para todos, tendo em vista a perda irreparável do amigo pessoal e folclorista, professor Severino Vicente. No livro de assinaturas da Casa de Velórios São José escrevi apenas: "Quem continuará?". Foi o que veio na mente naquele momento de profunda consternação. 

Sei que não se engessa a cultura popular, a qual é muito dinâmica e mutante, mas penso nesses grandes monumentos que estão indo embora. Tanto os estudiosos do Folclore quanto os mestres e brincantes. Professor Severino Vicente foi um baluarte na salvaguarda do folclore do Rio Grande do Norte.

Não acreditei quando vi aquele monumento num caixão. Quanta sabedoria viraria cinza! Uma biblioteca foi sepultada hoje. É certo que Severino não é gigante apenas por isso, afinal foi excelente amigo, querido por todos, excelente pai, esposo e avô. Um homem de caráter. Pessoa admirável. Sua filha fez uma linda homenagem.

Estive na Casa de Velório e Cremação São José, onde houve a celebração da missa de encomendação seguida de uma homenagem feita por um grupo folclórico, cujos atores dançaram lhe reverenciaram junto ao ataúde.  Logo após se deu a cemimônia de cremação. 

Homenagem Póstuma a Severino Vicente (1948–2026)

Com imensa tristeza, a cultura popular potiguar e brasileira despede-se do professor, historiador, escritor e folclorista Severino Vicente, que faleceu no dia 11 de fevereiro de 2026, aos 77 anos, após uma longa batalha contra o câncer. Sua partida representa uma perda profunda e irreparável para o estudo, a preservação e a valorização do folclore no Rio Grande do Norte e em todo o país.

Nascido em 1948, Severino Vicente dedicou sua vida à pesquisa, à difusão e à defesa das tradições populares nordestinas. Embora os registros públicos não detalhem amplamente sua data e local exatos de nascimento, sua trajetória intelectual e cultural confunde-se com a própria história da valorização do folclore potiguar nas últimas décadas.

Homem de vasta erudição e sensibilidade, exerceu papel de grande relevância institucional ao presidir a Comissão Nacional de Folclore, instância fundamental na articulação dos estudos e das políticas voltadas às manifestações culturais populares em âmbito nacional. Também esteve à frente da Comissão Norte-Rio-Grandense de Folclore, entidade histórica dedicada à salvaguarda, pesquisa e promoção do folclore potiguar. Nessas funções, consolidou-se como o maior estudioso do Folclore do Rio Grande do Norte, referência incontornável para pesquisadores, mestres da cultura popular e instituições culturais.

Autor de três livros dedicados ao estudo das tradições populares, Severino investigou com profundidade as raízes históricas, simbólicas e sociais das manifestações culturais nordestinas. Sua obra abordou, inclusive, as influências europeias reinterpretadas no contexto regional, revelando como o povo potiguar recriou e ressignificou heranças culturais ao longo dos séculos. Para ele, o folclore nunca foi mero espetáculo: era memória viva, identidade coletiva e patrimônio imaterial que precisava ser compreendido, respeitado e transmitido.

Severino Vicente deixa sua esposa, Zeneide, além de filhos, netos e bisnetos, que hoje guardam não apenas a saudade, mas o orgulho de sua trajetória exemplar. À família, unem-se incontáveis amigos, colegas e discípulos que encontraram nele um mestre generoso, sempre disposto a compartilhar saberes e incentivar novas pesquisas.

Sua morte provoca um prejuízo incalculável à Cultura Popular do Rio Grande do Norte. Perdemos um guardião da memória, um intelectual comprometido com as raízes do povo, um articulador incansável de políticas culturais e um defensor firme das tradições populares. Em um tempo em que a preservação do patrimônio imaterial exige vigilância e dedicação, a ausência de Severino deixa uma lacuna difícil de preencher.

Permita-me acrescentar, neste momento de despedida, meu pesar pessoal. Foram mais de 30 anos de amizade, convivência e admiração. Compartilhamos inúmeros eventos folclóricos pelo Rio Grande do Norte, seminários, encontros, debates, festivais e celebrações da cultura popular. Caminhamos lado a lado na defesa das tradições potiguares, aprendendo e ensinando juntos. Sua presença era sempre marcada pela firmeza intelectual, pela elegância no trato e pelo amor incondicional ao folclore.

Hoje, despeço-me não apenas de um grande pesquisador, mas de um amigo leal e inspirador. Seu legado permanecerá vivo nas páginas que escreveu, nas instituições que fortaleceu e, sobretudo, nas manifestações culturais que ajudou a preservar. Severino Vicente parte, mas sua obra e seu exemplo continuam iluminando o caminho daqueles que acreditam que a cultura popular é a alma de um povo.







































































































































































































































































































































































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