POR QUE NÃO CONHECEMOS AS PRATAS DA CASA?

 


Nos últimos dias, fiquei surpreso ao ver diversas postagens nas redes sociais e em jornais digitais potiguares informando que o prefeito de Natal, Paulinho Freire, havia vetado o projeto de lei do vereador Daniel Valença que determinava a obrigatoriedade de as livrarias da capital reservarem espaço em suas vitrines para obras de autores potiguares. A notícia me chamou a atenção porque o projeto é importante, e independente disso, já havia sido aprovado pela Câmara Municipal. Ou seja, depois de passar pela discussão legislativa e receber o aval dos vereadores, a proposta acabou sendo barrada pelo Executivo. Mais do que discutir o mérito do veto, isso me levou a pensar sobre uma questão que, há muito tempo, considero central: por que conhecemos tão pouco os artistas da nossa própria terra?

Essa reflexão não nasceu agora. Há poucos meses, conversava com uma pessoa ligada às oficinas de música de Parnamirim O assunto era o desconhecimento que muitas crianças e adolescentes têm em relação aos músicos parnamirinenses. Ouvi atentamente e, ao final da conversa, expus uma opinião que continuo considerando a única saída possível para mudar esse cenário: criar estratégias inteligentes e sensatas para aproximar crianças e jovens dos artistas e agentes de cultura locais.

O que falta é pertencimento. É preciso que a criança cresça conhecendo quem produz arte na cidade onde ela vive. Crianças e jovens precisam saber quem escreve, quem pinta, quem canta, quem dança, quem pesquisa, quem faz teatro, quem promove a cultura popular na sua cidade. O interesse dificilmente surge pelo acaso. Primeiro vem o contato; depois, a familiaridade; por fim, o gosto. Ninguém aprende a admirar aquilo que nunca lhe foi apresentado. Sempre entendi que devemos valorizar os artistas locais: músicos, atores, pintores e dançarinos, da mesma forma que os escritores, os mestres e os brincantes das mais diversas manifestações da cultura popular. Porém, num país em que a arte ainda é tratada, muitas vezes, como um luxo - ou até como algo supérfluo, ressalvadas as exceções - não chega a ser estranho que o pr´prio povo desconheça muitas de suas pratas da casa.

Em 2017, escrevi o espetáculo Câmara Cascudo e o Tapete Mágico, apresentado no Cine-Teatro Municipal Vereador Paulo Barbosa da Silva. Durante os ensaios, vivi uma experiência que nunca esqueci: descobri que muitos alunos das oficinas de arte não tinham a menor ideia de quem havia sido Luís da Câmara Cascudo. Isso me impressionou. Estamos falando de um dos maiores intelectuais brasileiros, pesquisador do folclore, historiador, antropólogo, etnógrafo, jornalista eprofessor. Um homem que dedicou a vida a estudar a cultura popular e cuja obra continua sendo referência para quem deseja compreender a identidade cultural do Brasil.

Se isso acontece com Câmara Cascudo, imagine o que ocorre com músicos, escritores, atores, artistas plásticos e tantos outros fazedores de cultura que estão mimetizados entre nós. Esse episódio apenas reforçou uma convicção que já carregava: não basta produzir arte. É preciso criar oportunidades para que as pessoas a conheçam. O reconhecimento quase sempre nasce da convivência. E a convivência depende de aproximação.

Foi justamente por isso que as notícias sobre o veto despertaram minha atenção. Muito além da discussão jurídica ou política, elas reacenderam uma pergunta que considero essencial: o que estamos fazendo, de forma concreta, para que o povo potiguar conheça aqueles que constroem diariamente a cultura do Rio Grande do Norte?

Essa pergunta me acompanha há anos e, confesso, torna-se ainda mais inquietante toda vez que vejo alguém lendo um livro físico ou jornal impresso em um espaço público. Hoje isso é raro. Quase todos estão com os olhos voltados para a tela do celular, deslizando os dedos rapidamente. Mas, quando encontro alguém com um livro nas mãos, tenho o hábito - talvez um defeito, talvez uma curiosidade incurável - de tentar descobrir qual obra está sendo lida. Quando não consigo identificar a capa, pergunto ao leitor. A conversa quase sempre começa pelo livro e, naturalmente, envereda pelos autores.

Nessas ocasiões, costumo mencionar escritores de Parnamirim e de Natal. É um exercício simples, mas revelador. E a constatação, infelizmente, quase nunca muda: a maioria das pessoas desconhece os autores da própria terra. Conhecem J. K. Rowling, J. R. R. Tolkien, George R. R. Martin, Dan Brown, Colleen Hoover, John Green. Entre os brasileiros, citam de Clarice Lispector, Carlos Drummond, Carolina Maria de Jesus e tantos outros, todos merecidamente reconhecidos. Mas, quando a conversa chega aos escritores potiguares contemporâneos, instala-se um silêncio que diz muito mais do que qualquer resposta. E eu sempre digo: "Você precisa ler os escritores Ana Cláudia Trigueiro, José Acaci, Angélica Vitalino, José de Castro, Gilvânia Machado, Francisco Martins, Gilvânia Machado, Carlos Peixoto, Lenilson Antunes, Valdívia Beauchamps, Jânia Souza... E em outros momentos, no devido contexto, questiono se a pessoa conhece os músicos Ismael Dumang e Caio Padilha, a Cia. Gira Dança, os bailarinos Rodolpho Santos, Vitória Santos e Thaíse Galvão, a artista plástica e escritora Ana Catarina Fernandes, enfim...

Não vejo o desconhecimento sobre as pratas da casa como culpa do adulto. Como alguém poderá se interessar por um escritor que nunca lhe foi apresentado? O próprio habitat, por excelência, nos apresenta Clarice Lispector, Machado de Assis,  J. K. Rowling e outros. No Instagran e Facebook topamos com eventos nacionais e internacionais sobre Guimarães Rosa, Machado de Assim, Mary del Priori, Clarice Lispector - frases, provérbios, pensamentos deles -, portanto nos familiarizamos por excelência. Mas e com os locais? Você já topou com Ana Cláudia Trigueiro, Ana Catarina, Francisco Martins, Ismael Dumang, Acaci, Rodolpho Santos???

É por isso que sigo acreditando que o caminho mais eficiente passa pela infância.

A criança da escola pública e privada precisa conviver com a cultura produzida no lugar onde vive. Precisa ouvir, na escola, a música dos compositores da sua cidade. Precisa encontrar, na biblioteca, os livros dos escritores que caminham pelas mesmas ruas que ela percorre. Precisa conhecer os artistas plásticos, os grupos de teatro, os mestres da cultura popular, os fotógrafos, os cordelistas, os escultores... Não para desprezar a produção de outros estados ou países, mas para compreender que a cultura também acontece perto dela. Começa ao lado dela. O gosto nasce do conhecimento. Antes de admirar, é preciso conhecer. Antes de valorizar, é preciso conviver.

É justamente por isso que acredito que as escolas têm um papel decisivo nesse processo. Refiro-me desde a Educação Infantil até o Ensino Fundamental. Não imagino uma disciplina específica para isso, mas uma política pública permanente. Defendo, inclusive, que os municípios criem leis orientando as redes de ensino a desenvolver ações contínuas de valorização dos artistas locais, para que escritores, músicos, atores, artistas plásticos, mestres da cultura popular e tantos outros passem a fazer parte do cotidiano escolar. Não se trata de criar uma obrigação burocrática, mas de estabelecer uma diretriz capaz de garantir que esse trabalho continue existindo, independentemente de quem esteja ocupando os cargos de gestão. A cultura não pode depender apenas da boa vontade de um diretor, de um professor ou de um secretário de educação; ela precisa estar amparada por políticas públicas permanentes.

Se cada professor trabalhar, ao longo do ano, algumas obras de escritores da cidade; se apresentar músicas compostas por artistas locais; se utilizar pinturas, poemas, fotografias e textos produzidos por quem vive na região; se transformar esse material em leitura, exposição, apresentação cultural, gincana, sarau ou festival, pouco a pouco esses nomes deixarão de ser estranhos. Eles passarão a fazer parte da memória afetiva dos alunos.

Depois desse primeiro contato, o passo seguinte acontece quase naturalmente: aproximar os artistas das escolas. Imagine um escritor visitando uma turma que já leu seus livros. Imagine um compositor sendo recebido por estudantes cantando suas músicas porque aprenderam suas canções durante as aulas. Imagine um artista plástico encontrando crianças que reproduziram releituras de suas obras em sala de aula. Não há homenagem maior para quem dedica a vida à arte do que perceber que ela encontrou abrigo na imaginação de uma nova geração. Esse encontro transforma todos os envolvidos.

O aluno percebe que o artista não é uma figura distante, inacessível, restrita aos livros didáticos ou aos documentários da televisão. Descobre que ele mora na mesma cidade, frequenta os mesmos espaços e enfrenta os mesmos desafios de qualquer cidadão. O artista, por sua vez, encontra o público que sempre desejou alcançar. É assim que se constrói pertencimento.

Foi exatamente por isso que a notícia sobre o veto me fez voltar a essa reflexão. Ainda que se discutam os aspectos jurídicos da proposta ou as razões que levaram o Executivo a rejeitá-la, continuo convencido de que a ideia que motivou o projeto merece ser debatida com serenidade. Dar visibilidade aos autores potiguares não significa retirar espaço de escritores consagrados nem interferir na liberdade de escolha dos leitores. Significa apenas reconhecer que uma livraria instalada em Natal ou em Parnamirim pode, legitimamente, apresentar ao público aqueles que escrevem sobre esta terra, preservam sua memória e ajudam a construir sua identidade. Afinal, aquilo que não é visto dificilmente será lembrado. E aquilo que não é lembrado corre sempre o risco de desaparecer do imaginário coletivo.

Quanto mais penso sobre isso, mais me convenço de que não existe solução isolada. Não será uma única lei, um único projeto ou uma única instituição que mudará esse cenário. A lei que propõe dar visibilidade aos autores potiguares nas vitrines das livrarias é importante, porque amplia o encontro entre o escritor e o leitor. Mas ela pode caminhar ao lado de outras iniciativas igualmente transformadoras, entre elas uma legislação que incentive as escolas a desenvolver, de forma permanente, ações voltadas ao conhecimento das pratas da casa. Uma lei aproxima os autores do público nas livrarias; a outra os aproxima das crianças, justamente na fase da vida em que o pertencimento começa a ser construído. Não vejo como problema, por exemplo, que as secretarias municipais e estaduais de educação comprem uma parte das obras dos autores regionais e encontre formas de disponibilizá-las aos públicos específicos. Isso pode perpassar por lei sem problema algum, pois é nobre. 

A valorização da cultura local depende de um esforço conjunto, contínuo e, sobretudo, de uma mudança de mentalidade. As escolas têm um papel fundamental, mas não estão sozinhas. As bibliotecas, as universidades, os institutos federais, as fundações culturais, o Sistema S, as academias de letras, as secretarias de cultura, as câmaras municipais, os meios de comunicação e até a iniciativa privada podem contribuir para aproximar a população dos artistas da terra. Cada instituição pode fazer a sua parte. Não se trata de criar privilégios, mas de corrigir uma invisibilidade histórica.

Quando uma biblioteca organiza um espaço dedicado aos escritores locais, quando uma escola convida um músico da cidade para conversar e cantar com seus alunos, quando uma livraria destaca autores potiguares em sua vitrine, quando um festival reserva espaço para artistas da região, todos estão colaborando para a mesma causa: permitir que a população conheça aquilo que ela própria produz. É curioso perceber que admiramos com facilidade aquilo que vem de longe, mas, muitas vezes, ignoramos o talento que está ao nosso lado. Não há problema algum em ler autores estrangeiros ou prestigiar artistas de outros estados. Eu mesmo faço isso constantemente. A cultura não deve conhecer fronteiras. O problema surge quando essa abertura para o mundo não é acompanhada pelo conhecimento das nossas próprias raízes.

Ninguém precisa escolher entre um escritor potiguar e um escritor francês, entre um compositor natalense e um músico inglês. Uma coisa não exclui a outra. Pelo contrário: quanto maior for nosso repertório, mais rica será nossa experiência como leitores, ouvintes e espectadores. O que me parece injusto é que tantos artistas norte-rio-grandenses permaneçam desconhecidos justamente porque nunca lhes foi dada a oportunidade de serem vistos.Volto, então, à conversa que tive em Parnamirim. Naquele dia, saí convencido de que o pertencimento não nasce espontaneamente. Ele é construído. A criança aprende a gostar daquilo que lhe é apresentado com naturalidade. É assim com a leitura, com a música, com o teatro, com as artes visuais e com tantas outras manifestações culturais.

Se um aluno passa toda a sua vida escolar sem ouvir uma única música composta por um artista da sua cidade, sem ler um livro de um escritor potiguar, sem visitar uma exposição de um pintor norte-rio-grandense ou sem conhecer um mestre da cultura popular, dificilmente chegará à vida adulta valorizando aquilo que nunca fez parte da sua formação. Por outro lado, quando esse contato acontece desde cedo, tudo muda. Os nomes deixam de ser estranhos. As obras passam a ser familiares. A curiosidade aparece naturalmente. E o que antes parecia distante transforma-se em motivo de orgulho. É exatamente esse orgulho que chamo de pertencimento.

Talvez seja por isso que as notícias sobre o veto tenham provocado em mim muito mais reflexão do que indignação. Independentemente das posições políticas ou das interpretações jurídicas sobre o projeto, continuo acreditando que ele trouxe para o centro do debate uma questão que não pode ser ignorada: como fazer com que os potiguares conheçam melhor os seus próprios escritores? Essa pergunta continua sem uma resposta definitiva, mas uma certeza eu carrego comigo há muito tempo. O reconhecimento vem depois do conhecimento. Ninguém valoriza aquilo que desconhece.

Se desejamos uma sociedade que prestigie seus artistas, precisamos apresentá-los às crianças. Precisamos colocá-los nas escolas, nas bibliotecas, nos teatros, nas feiras literárias, nas galerias, nos festivais, nos meios de comunicação, na rua, e, por que não, também nas vitrines das livrarias. Porque uma vitrine não vende apenas livros. Ela desperta curiosidade. E, às vezes, basta um livro visto na hora certa para que um leitor descubra um autor que caminhava pela mesma cidade sem jamais ter sido percebido. No fim das contas, é disso que estamos falando. Não apenas de livros. Nem apenas de escritores. Estamos falando da forma como um povo escolhe cuidar da própria memória. E um povo que conhece seus artistas conhece melhor a si mesmo.

CORPUS CHRISTI...


Segundo a programação divulgada pela Arquidiocese de Natal para as celebrações de Corpus Christi, a solenidade na matriz de Nossa Senhora de Fátima acontecerá às 16h, reunindo os fiéis para a celebração e os atos próprios da festa eucarística. A paróquia tem como igreja matriz o templo localizado na Praça da Paz de Deus, no Centro de Parnamirim, e é atualmente administrada pelo Pe. Paulo Henrique da Silva.

Corpus Christi é uma das celebrações mais importantes da tradição católica. A expressão vem do latim e significa “Corpo de Cristo”. Nessa solenidade, a Igreja celebra de maneira especial a presença real de Jesus Cristo na Eucaristia, isto é, no pão e no vinho consagrados durante a Santa Missa, que, segundo a fé católica, tornam-se o Corpo e o Sangue de Cristo. A data constitui um dos momentos mais significativos do calendário litúrgico católico, pois recorda e exalta o sacramento considerado o centro da vida cristã.

A festa de Corpus Christi foi instituída oficialmente pelo Papa Urbano IV em 1264, por meio da bula Transiturus de hoc mundo. Sua criação teve como objetivo reforçar a devoção à Eucaristia e destacar a importância do sacramento que, para os católicos, foi instituído pelo próprio Jesus durante a Última Ceia, na véspera de sua paixão e morte. A origem da celebração está ligada às visões místicas da religiosa Juliana de Cornillon, que defendia a necessidade de uma festa específica dedicada ao Santíssimo Sacramento. Outro acontecimento que contribuiu para a instituição da solenidade foi o chamado Milagre de Bolsena, quando, segundo a tradição católica, uma hóstia consagrada teria manifestado sinais extraordinários durante uma celebração.

Corpus Christi é celebrado sempre numa quinta-feira, exatamente sessenta dias após a Páscoa. A escolha da quinta-feira recorda a Quinta-Feira Santa, dia em que Jesus instituiu a Eucaristia durante a Última Ceia. No Brasil e em diversos países de tradição católica, a data costuma ser feriado ou ponto facultativo. Nesse dia, as igrejas realizam missas solenes, momentos de adoração ao Santíssimo Sacramento e, sobretudo, a tradicional procissão de Corpus Christi. Durante a procissão, o sacerdote conduz pelas ruas o ostensório, objeto litúrgico que expõe a hóstia consagrada para a veneração dos fiéis. Esse gesto simboliza a presença de Cristo caminhando entre seu povo e abençoando as comunidades por onde passa.

Uma tradição particularmente muito forte nas regiões Sul e Sudeste do Brasil é a confecção de grandes tapetes artísticos ao longo das ruas por onde passa a procissão. Mobilizando paróquias, escolas, famílias e grupos comunitários, esses tapetes transformam as vias públicas em verdadeiras obras de arte efêmeras, ornamentadas com imagens de santos, passagens bíblicas, símbolos eucarísticos, cruzes, cálices, pombas e mensagens de fé. Em cidades de estados como Minas Gerais, São Paulo, Paraná e Santa Catarina, essa prática tornou-se um importante patrimônio cultural e religioso, atraindo visitantes e fortalecendo os laços de devoção e participação comunitária.

Eles são produzidos com serragem tingida, areia, flores, sal, borra de café, cascas de arroz e outros materiais, formando desenhos que expressam a fé cristã e a criatividade popular. A tradição chegou ao país por influência portuguesa e foi incorporada à cultura brasileira, assumindo características próprias em cada região. Para os católicos, Corpus Christi é muito mais que uma festividade. Trata-se de um convite à reflexão sobre a presença de Cristo na Eucaristia e sobre o compromisso de viver os ensinamentos do Evangelho. É um dia de fé, adoração, comunhão e testemunho público da crença no Santíssimo Sacramento, considerado o coração da vida cristã católica.

BIOGRAFIA DE ISMAEL DUMANG...


Cantor, compositor, poeta, cordelista e agente cultural, Ismael Dumang é reconhecido como um dos mais autênticos representantes da música autoral do Rio Grande do Norte. Nascido em 5 de novembro de 1960, no município de São José de Mipibu, filho de Raimundo Nonato de Araújo e Emygdia Alves de Araújo, teve suas origens ligadas ao Sítio Quebra Fuzil, ambiente marcado pela presença dos antigos engenhos, pelas tradições populares e pela forte identidade cultural do interior potiguar. Criado posteriormente no centro de São José de Mipibu por sua mãe adotiva, cresceu em meio às manifestações populares, às celebrações religiosas e à intensa musicalidade presente no cotidiano da cidade. 

1996

O rádio, os alto-falantes espalhados pelas ruas, as radiolas e as canções que ecoavam pelas casas foram decisivos em sua formação artística. Desde cedo, absorveu influências dos hinos da Harpa Cristã, da música sertaneja e romântica e de artistas como Roberto Carlos e Sérgio Reis. Mais tarde, aproximou-se da obra de compositores como Belchior, Fagner e Alceu Valença, referências fundamentais para a construção de sua identidade musical e de sua compreensão da canção como expressão poética e instrumento de reflexão humana.

A religiosidade exerceu papel importante em sua formação. Durante parte da juventude participou das atividades da Assembleia de Deus, experiência que contribuiu para desenvolver a sensibilidade melódica, a dramaticidade narrativa e a intensidade emocional presentes em sua obra. Nos primeiros anos da década de 1980 iniciou sua trajetória artística de maneira mais efetiva, participando de apresentações em eventos populares e festividades locais. Ainda jovem, recebeu seu primeiro cachê durante o carnaval de São José de Mipibu, episódio que simboliza o início de sua caminhada profissional na música.

1999

Em 1983, mudou-se para o município de Parnamirim, cidade onde consolidaria sua carreira artística e desenvolveria grande parte de sua atuação cultural. Na “Terra de Manoel Machado”, integrou a banda Natureza, atuando como baixista em apresentações realizadas em diversas cidades do Rio Grande do Norte. A experiência ampliou seus conhecimentos musicais e fortaleceu sua presença nos palcos. Posteriormente, aprofundou seus estudos de música, dedicando-se ao aprendizado do cavaquinho, da flauta doce e, sobretudo, da composição autoral, área na qual encontraria sua principal forma de expressão.

Um dos aspectos mais importantes de sua trajetória foi o aprofundamento nos estudos da literatura de cordel e das formas poéticas dos repentistas nordestinos. O domínio da métrica, da rima e da musicalidade dos versos tornou-se uma das marcas de sua produção artística. Suas composições apresentam forte elaboração literária sem perder a simplicidade comunicativa característica da canção popular nordestina. Em sua obra, letra e melodia surgem de forma integrada, revelando uma escrita musical refinada e profundamente ligada à tradição dos poetas populares. Sua produção estabelece uma ponte entre o cancioneiro nordestino e a moderna música popular brasileira, preservando identidade própria marcada pela valorização das raízes culturais, da memória afetiva e da autenticidade artística.

2003

Ao longo da carreira, Ismael Dumang consolidou-se como compositor de rara sensibilidade. Suas canções abordam temas como pertencimento, saudade, infância, fé, amor e identidade cultural, transformando experiências pessoais em mensagens universais. Em suas letras permanecem vivas as lembranças dos engenhos, das igrejas, das ruas de São José de Mipibu e das paisagens humanas do interior potiguar. Sua obra distingue-se pelo rigor na escolha das palavras, pela riqueza poética e pela profunda musicalidade dos versos.

A maturidade artística alcançada ao longo dos anos pode ser observada em sua vasta produção fonográfica. Em 1996 lançou o álbum Estação do Sonho, trabalho que marcou uma etapa importante de afirmação de sua linguagem autoral. Três anos depois, em 1999, apresentou Terra de Engenho, obra profundamente inspirada nas memórias da zona canavieira, nos engenhos e nas paisagens humanas do interior potiguar. Em 2003 lançou Astro de Quimera, ampliando o alcance poético de sua produção musical.

2004

No ano de 2004 veio a público o álbum Vivências, considerado um dos trabalhos mais representativos de sua trajetória. O próprio título sugere uma síntese de experiências humanas, afetivas e existenciais acumuladas ao longo da vida. O disco reúne as canções Vivências, Amo-te, A Ilusão da Vida, O Tempo da Canção, Fome, Frustrações, Pretensões, Poética, Queixumes, Prisioneiro, Tributo às Bicicletas, As Bem-Aventuranças, Saudade (instrumental) e Epílogo. O repertório oferece uma verdadeira janela para o universo criativo de Ismael Dumang, revelando reflexões sobre o amor, o tempo, os sonhos, as limitações humanas, as inquietações sociais e os dilemas da existência. Trata-se de um álbum em que o compositor expõe com maior clareza sua dimensão filosófica, sua sensibilidade poética e sua capacidade de transformar experiências cotidianas em arte.

2006

Dando continuidade à sua produção, lançou Palavras em 2006, reafirmando a importância da literatura e da poesia em seu processo criativo. Em 2008 apresentou Navegante, obra marcada pela simbologia das travessias humanas, dos encontros e dos caminhos percorridos ao longo da vida. No ano seguinte, em 2009, lançou Enigma das Estações, álbum que dialoga com as transformações do tempo, da natureza e da própria condição humana.

2008

Após um período dedicado a novas composições e projetos culturais, Ismael Dumang retornou à discografia com Cocada Sambótica, lançado em 2021, trabalho que evidencia sua permanente capacidade de renovação artística sem abrir mão de suas raízes culturais. Em 2023 apresentou Implacável Tempo, obra que aprofunda reflexões sobre a passagem dos anos, a memória, os afetos e a condição humana diante da inevitabilidade do tempo. Já em 2026 lançou Floresta Voraz, álbum que simboliza um novo momento de maturidade criativa, reafirmando a vitalidade de sua produção artística e sua permanente disposição para criar, renovar-se e dialogar com o público.

2009

Entre as composições associadas à sua produção artística destacam-se Terra de Engenhos, Lua de Céu-Sertão (Lua Mariana), O Canavial Invasor, Represa, Galope da Sabedoria, Sou, Barreta, O Preço de um Homem e O Velho Chico, obras que evidenciam sua forte ligação com a poesia, a memória nordestina e a valorização das experiências humanas.

2021

Além da carreira musical, desenvolveu importante atuação como cordelista, poeta e agente cultural. Participou de projetos promovidos pela Fundação Parnamirim de Cultura e contribuiu para iniciativas voltadas ao fortalecimento da produção artística local. Destaca-se sua participação no espetáculo Asas da História, de autoria de Makários Maia, para o qual compôs parte significativa da trilha sonora em uma de suas versões. Também participou de apresentações virtuais durante o período da pandemia e marcou presença em festivais, mostras de música autoral e eventos realizados em importantes espaços culturais do estado, incluindo o Teatro Alberto Maranhão.

2023

Mesmo após mais de quatro décadas de trajetória artística, Ismael Dumang permanece em plena atividade. Em 2024 participou de um especial musical ao lado do músico potiguar Almir Padilha, reafirmando sua presença constante na cena cultural do estado. Atualmente encontra-se em fase avançada de produção de um novo álbum autoral, projeto que deverá reunir composições inéditas e cuja previsão de lançamento está programada para o ano de 2027.

Floresta Voraz - 2026

Reconhecido pela coerência de sua obra e pela independência de sua criação artística, Ismael Dumang sempre manteve distância dos modismos passageiros e das imposições mercadológicas. Sua música caracteriza-se pela autenticidade, pela profundidade poética e pelo respeito às tradições culturais nordestinas. Ao longo de mais de quatro décadas de atuação, consolidou-se como uma das vozes mais expressivas da música autoral do Rio Grande do Norte. Seu legado artístico, construído com sensibilidade, coerência e profundo respeito à cultura popular, contribui significativamente para o fortalecimento da identidade cultural de Parnamirim, de São José de Mipibu e de todo o estado do Rio Grande do Norte, tornando-o merecedor do reconhecimento público por sua relevante contribuição à música e à cultura potiguar.


LICOR DE JENIPAPO...

  


Minha mãe fazia muito licor de maracujá, pequi, guavira (goivira,guabiraba) e jabuticaba. Ela lavava bem as frutas, enxugava, rasgava com as mãos, despedaçando-as e mergulhava numa cachaça boa. Ela usava uma vasilha plástica. Deixava guardada num armário que ficava numa área isolada da casa, de pouco uso, durante seis meses.


Passados os seis meses, ela escoava tudo numa peneira fina, dava umas leves apertadinhas no bagaço para que o álcool bem curtido saísse totalmente e jogava fora. Depois, ela pegava um funil daqueles bem grandes, de zinco, acamava um tufo de algodão (desses que se compra em farmácia) na parte fina do funil, ajeitando bem, mas sem apertá-lo. 


Esse funil tem que ser acomodado numa vasilha onde ficará o líquido pronto, após ser coado lentamente (e bote lentamente nisso) pingando na vasilha de baixo. Às vezes demora considerável tempo, às vezes é mais rápido, mas quanto mais lento, melhor ficará o licor. Sem borra. Depois de coado no algodão era a hora de ela preparar o licor. É simplesmente delicioso!

DETALHE IMPORTANTE: minha mãe e meu pai nunca ingeriram álcool. O licor era para as visitas... Eu já não obedeci minha mãe. Faço e bebo com moderação, inclusive ainda resta por aqui um licor de jabuticaba que fiz há uns dois anos...

Seis meses depois...


PARNAMIRIM: ENTRE ENGENHOS E QUILOMBOS: MEMÓRIAS DA ESCRAVIDÃO E DA RESISTÊNCIA NEGRA NAS TERRAS DE MANOEL MACHADO...


No mês de maio, quando o Brasil relembra a assinatura da Lei Áurea, em 13 de maio de 1888, torna-se indispensável revisitar a memória das antigas terras que hoje formam o município de Parnamirim. Muito antes de sua emancipação política, esse território esteve ligado às jurisdições históricas de São José de Mipibu, Nísia Floresta e, posteriormente, Natal. Entre rios, várzeas e tabuleiros férteis, floresceram antigos engenhos de açúcar que testemunharam simultaneamente a riqueza da aristocracia rural e o sofrimento dos negros escravizados. Ainda restam resquícios de alguns deles e até mesmo ruínas.

Nas terras que hoje pertencem a Parnamirim existiram importantes unidades produtoras ligadas ao ciclo açucareiro potiguar. Entre elas destacavam-se os engenhos Cajupiranga, Pium, Pitimbu e Japecanga, propriedades que, durante décadas, sustentaram a economia regional através da monocultura da cana-de-açúcar. Inclusive há uma antiga chaminé do engenho Cajupiranga que foi preservada como marco histórico dentro da área urbanizada de Cajupiranga, servindo como um dos últimos vestígios materiais do ciclo açucareiro naquela regiãoNessas terras ecoaram os sons das moendas, dos carros de boi e, sobretudo, o labor forçado de homens e mulheres africanos e afrodescendentes submetidos ao regime escravista.

Os antigos engenhos mantinham estreitas relações econômicas e sociais com os núcleos históricos de Papary - atual Nísia Floresta - e de São José de Mipibu, regiões emolduradas por diversos engenhos e por uma terra muito rica. Por essas estradas coloniais transitavam mercadorias, senhores de engenho, mascates, viajantes e também escravizados conduzidos para o trabalho diário nos canaviais. O açúcar produzido nessas propriedades alimentava não apenas a economia provincial, mas também a própria estrutura do sistema escravista no Rio Grande do Norte.

Todavia, a história dessas terras não se resume ao domínio senhorial. Ela também é marcada pela resistência negra. Um dos exemplos mais significativos encontra-se na comunidade quilombola de Moita Verde, localizada em Parnamirim. A formação da comunidade remonta ao ano de 1850, quando antigos moradores do Quilombo Capoeiras, em Macaíba, instalaram-se na região de Moita Verde.

A presença desses quilombolas constitui um dos capítulos mais importantes da resistência afrodescendente na Grande Natal. Vindos de Capoeiras - comunidade reconhecida pela forte ancestralidade negra - os moradores de Moita Verde construíram um território de preservação cultural, solidariedade comunitária e permanência histórica. Ainda hoje, o Quilombo Moita Verde mantém viva a memória de seus antepassados, preservando tradições culturais, religiosas e familiares transmitidas através das gerações. O reconhecimento oficial da comunidade como remanescente quilombola pela Fundação Cultural Palmares reafirma a importância histórica daquele território.

Ao rememorar o mês da abolição, é preciso compreender que a liberdade jurídica conquistada em 1888 não significou igualdade social imediata. Muitos negros libertos permaneceram sem terras, sem acesso à educação e submetidos à pobreza estrutural herdada da escravidão. Ainda assim, resistiram. Formaram comunidades, preservaram suas raízes africanas e contribuíram decisivamente para a formação cultural e humana do Rio Grande do Norte.

Falar da abolição nas terras de Parnamirim é recordar não apenas os antigos engenhos e as famílias senhoriais, mas sobretudo os homens e mulheres negros que construíram aquela região com suor, sofrimento e resistência. Maio deve ser, acima de tudo, um tempo de memória histórica, reconhecimento e reverência aos ancestrais africanos que ajudaram a erguer as bases sociais e culturais das terras potiguares.

ISMAEL DUMANG: “A MÚSICA QUE FAÇO NASCE DA MEMÓRIA E DO SENTIMENTO”


Cantor, compositor, poeta e cordelista, Ismael Dumang é um dos nomes mais autênticos da música autoral potiguar. Nascido em São José de Mipibu no dia 5 de novembro de 1960, filho de Raimundo Nonato de Araújo e Emygdia Alves de Araújo, radicado em Parnamirim desde 1983, cidade onde consolidou grande parte de sua trajetória artística e cultural, o artista construiu uma obra marcada pela poesia, pela valorização das raízes nordestinas e pela recusa em transformar sua arte em produto descartável.

Ao longo de mais de quatro décadas vivendo na “Terra de Manoel Machado”, Ismael Dumang tornou-se também uma referência cultural parnamirinense, mantendo viva uma produção musical profundamente ligada à memória, à sensibilidade poética e à identidade nordestina. Em conversa ao BLOG TRAMPOLIM PARA A VITÓRIA, ele fala sobre infância, memória, religiosidade, literatura de cordel, influências musicais e o compromisso de produzir uma obra que permaneça viva no tempo.


BLOG TRAMPOLIM PARA A VITÓRIA: Ismael, sua trajetória artística nasce muito ligada à memória e às origens. Que lembranças da infância em São José de Mipibu ainda permanecem mais fortes em você?


ISMAEL DUMANG: Permanecem muitas coisas. A rua, os engenhos, as brincadeiras de infância, as radiolas, os parques, o som das músicas chegando pelas janelas das casas… Tudo isso ficou muito vivo dentro de mim. Eu costumo dizer que minha música nasce justamente desse universo de lembranças. A infância no interior deixa marcas profundas. O rádio teve uma importância enorme na minha formação. Eu ouvia de tudo: hinos religiosos, música sertaneja, Roberto Carlos, canções românticas. Aquilo foi formando minha sensibilidade sem que eu percebesse.


BLOG TRAMPOLIM PARA A VITÓRIA: Sua história de vida também é marcada pela descoberta da adoção. De alguma forma, isso influenciou sua arte?


ISMAEL DUMANG: Influenciou muito. Quando a gente descobre certas coisas sobre a própria origem, passa a olhar para a vida de outra maneira. Acho que isso aprofundou em mim uma necessidade maior de pertencimento, de entender as raízes, de compreender os afetos. Minha música fala muito sobre memória, identidade, reencontro, saudade… Talvez venha justamente daí. A arte, muitas vezes, acaba sendo uma maneira de organizar emoções.


BLOG TRAMPOLIM PARA A VITÓRIA: Você costuma citar influências muito diversas, que vão desde os hinos da igreja até Belchior e Alceu Valença. Como essas referências convivem dentro da sua música?


ISMAEL DUMANG: Convivem naturalmente. A música que escutei na infância nunca saiu de mim. Os hinos da igreja têm uma dramaticidade muito forte, uma intensidade emocional muito grande. Depois vieram Belchior, Fagner, Alceu Valença, que me mostraram uma música mais poética, mais elaborada. Mas tudo isso foi se somando. Nunca tive preocupação em seguir uma linha fechada. Minha música é resultado das experiências que vivi e das sonoridades que me tocaram ao longo da vida.


BLOG TRAMPOLIM PARA A VITÓRIA: Em suas composições existe uma preocupação muito forte com a palavra. Isso vem da convivência com o cordel e a poesia popular?


ISMAEL DUMANG: Sem dúvida. Quando comecei a estudar mais profundamente a literatura de cordel e as estruturas dos repentistas, passei a compreender melhor o peso da métrica, da rima, do ritmo interno dos versos. O cordel ensina disciplina poética. Ensina que a palavra precisa soar bem, carregar musicalidade. Tenho muito cuidado com isso. Gosto de lapidar a letra, procurar a frase certa, encontrar o encaixe exato entre palavra e melodia.


BLOG TRAMPOLIM PARA A VITÓRIA: Há quem diga que suas músicas possuem um sentimento muito telúrico, muito ligado à terra e às raízes nordestinas. Você concorda?


ISMAEL DUMANG: Concordo. Acho que não conseguiria fugir disso, porque faz parte de quem sou. Os engenhos, as ruas de Mipibu, as igrejas, as paisagens humanas do interior… tudo isso habita minha memória afetiva. Mesmo quando a música fala de sentimentos universais, existe sempre esse chão nordestino sustentando a composição. É algo natural.


BLOG TRAMPOLIM PARA A VITÓRIA: Você é frequentemente apontado como um artista que nunca cede aos modismos. Em tempos de músicas produzidas rapidamente para consumo imediato, como você enxerga isso?


ISMAEL DUMANG: : Eu respeito todos os estilos e todas as formas de fazer música, mas nunca consegui criar pensando em tendência ou mercado. Minha preocupação sempre foi fazer algo verdadeiro. Acho que a arte precisa ter permanência. Não gosto da ideia de música descartável. Gosto de compor algo que continue fazendo sentido daqui a muitos anos. Talvez isso torne o caminho mais difícil, mas também mais honesto comigo mesmo.


BLOG TRAMPOLIM PARA A VITÓRIA: Sua música parece buscar mais do que entretenimento. Existe uma intenção consciente de provocar reflexão?


ISMAEL DUMANG: Sim. A música pode emocionar, provocar lembranças, despertar reflexões. Não penso na canção apenas como distração. Gosto quando uma letra toca alguém profundamente, quando desperta memória ou sentimento. Acho que a arte tem essa capacidade de permanecer dentro das pessoas.


BLOG TRAMPOLIM PARA A VITÓRIA: O álbum Terra de Engenhos é considerado por muitos uma homenagem afetiva à sua cidade natal. Qual o significado desse trabalho para você?


ISMAEL DUMANG: É um trabalho muito especial porque reúne exatamente esse universo afetivo que me acompanha desde menino. Falar de São José de Mipibu é falar das minhas origens, das pessoas que fizeram parte da minha história, das paisagens que me formaram emocionalmente. Foi uma maneira de transformar memória em música.


BLOG TRAMPOLIM PARA A VITÓRIA: E como você vê a cena musical potiguar atualmente?


ISMAEL DUMANG: Vejo muitos artistas talentosos produzindo coisas interessantes. O Rio Grande do Norte sempre teve uma riqueza cultural enorme. O problema, muitas vezes, é a falta de espaço e incentivo. Mas existe uma geração muito boa surgindo, fazendo música autoral, valorizando identidade cultural. Isso é importante.


BLOG TRAMPOLIM PARA A VITÓRIA: Além da carreira artística, você também participa de projetos culturais e educacionais. Qual a importância desse trabalho?


ISMAEL DUMANG: Acho fundamental. A cultura precisa circular, alcançar os jovens, formar novos ouvintes e novos artistas. Quando participo de festivais estudantis ou projetos culturais, sinto que estou contribuindo para manter viva essa corrente da música e da poesia. A arte transforma pessoas.


BLOG TRAMPOLIM PARA A VITÓRIA: Depois de tantos anos de trajetória, o que ainda move Ismael Dumangue?


ISMAEL DUMANG: A emoção de criar. Enquanto eu tiver algo para dizer através da música, continuo compondo. A arte ainda me emociona profundamente. E talvez seja justamente isso que mantém tudo vivo: a capacidade de transformar experiências humanas em canção.


BLOG TRAMPOLIM PARA A VITÓRIA: Para encerrar: como você gostaria que sua obra fosse lembrada no futuro?


ISMAEL DUMANG: Gostaria que fosse lembrada como uma obra sincera. Uma música feita com verdade, respeito à poesia e amor pela cultura nordestina. Se minhas canções conseguirem permanecer na memória afetiva das pessoas, já me sinto realizado.

UM POUCO DE HISTÓRIA NA CHEGADA DA FESTA DA PADROEIRA DE PARNAMIRIM...


Às vésperas das festividades de Nossa Senhora de Fátima, celebradas anualmente em 13 de maio, a cidade de Parnamirim revive páginas importantes de sua formação religiosa e histórica, profundamente ligadas ao surgimento da fé católica organizada no município e à construção da antiga igreja matriz, símbolo da devoção do povo parnamirinense.

Muito antes da criação oficial da Paróquia de Nossa Senhora de Fátima, ocorrida em 1º de abril de 1952, a então Vila de Parnamirim já demonstrava crescente necessidade de assistência espiritual. O rápido desenvolvimento populacional provocado pela expansão do Campo de Parnamirim e pela presença militar transformava a pequena povoação em um dos núcleos urbanos mais promissores do Rio Grande do Norte. Nesse contexto, surgiu o desejo coletivo de erguer uma igreja que pudesse acolher os católicos da região.

No ano de 1946, o bispo diocesano Dom Marcolino Dantas tomou uma importante iniciativa ao constituir uma comissão encarregada da construção da futura igreja matriz da vila. Inicialmente, o projeto estava ligado à futura freguesia do Senhor do Bonfim, que seria criada na próspera localidade de Parnamirim.

A comissão responsável pela obra era formada por figuras representativas da sociedade local. Assumiu a presidência Josafá Machado, tendo como vice-presidente Manoel de Oliveira Bulhões. O professor Homero de Oliveira Dantas ocupou a função de secretário, enquanto Severino Pedro Nunes tornou-se tesoureiro. Também integravam a comissão o suboficial Luiz Gonzaga de Andrade, Manoel André da Silva, José Pedro da Silva, Luiz Joaquim Barreto, Severino Peregrino Celestino Potiguar, Manoel da Costa Fialho e Francisco Fernandes Pimenta.

A primeira grande reunião da comissão aconteceu em 20 de agosto de 1946, no salão do Grupo Escolar de Parnamirim, reunindo numerosas famílias da vila, que acompanhavam com entusiasmo o nascimento daquele importante projeto religioso. Durante o encontro, discursaram o presidente da comissão, além de Luiz Gonzaga de Andrade, Severino Pedro Nunes e o construtor Malaquias Soares, responsável por apresentar a planta da futura matriz.

O projeto arquitetônico já havia sido analisado e aprovado tanto pelo bispo Dom Marcolino Dantas quanto pela Diretoria de Obras da Prefeitura de Natal. A apresentação da planta foi recebida sob intensos aplausos dos presentes, refletindo a expectativa da população em torno da construção do templo religioso.

Na ocasião, os nomes de Dom Marcolino Dantas e do então prefeito de Natal, Sylvio Pedroza, foram calorosamente aclamados pelos participantes. A reunião também marcou o início oficial da campanha financeira para a construção da igreja, contando com contribuições espontâneas de moradores da comunidade.

Entre os primeiros colaboradores estavam Severino Peregrino da Silva e Genésio Domingos de Oliveira, ambos doando Cr$ 200,00. José Sales e Abílio Paulino da Costa contribuíram com Cr$ 100,00 cada. José Januário de Carvalho e Manoel Camilo Filho ofereceram Cr$ 50,00. José Alexandino participou com Cr$ 25,00, enquanto Antônio Leite Filho, Antônio Pessoa de Carvalho, Julio Bernardo de França e Francisco G. da Costa doaram Cr$ 20,00 cada. Antônio Augusto de Oliveira e Aríete Alexandrino da Silva contribuíram com Cr$ 5,00. Já Maria Alves de Souza realizou doações que totalizaram Cr$ 25,00.

Além dessas quantias, o tesoureiro Severino Pedro Nunes entregou à comissão o valor de Cr$ 1.037,00, importância que já se encontrava arrecadada anteriormente, fazendo com que a soma disponível para o início das obras alcançasse Cr$ 1.827,00 — valor expressivo para a época e que simbolizava o esforço coletivo da população na concretização do sonho da matriz própria.

Paralelamente ao crescimento religioso, Parnamirim vivia também discussões sobre sua autonomia política. Em 1947, uma emenda apresentada pelo monsenhor João da Mata Paiva propunha elevar a vila à condição de município, desligando-a administrativamente de Natal. Apesar das justificativas apresentadas, a proposta acabou rejeitada pela maioria dos deputados estaduais, sob a alegação de que Parnamirim ainda não possuía arrecadação e movimentação econômica suficientes para justificar sua emancipação.

Mesmo assim, a vila continuava crescendo rapidamente. Naquele mesmo ano de 1947, Parnamirim já possuía duas seções eleitorais funcionando no Grupo Escolar Presidente Roosevelt. A 28ª seção contava com 325 eleitores inscritos, enquanto a 29ª registrava 324 votantes, totalizando 649 eleitores — número significativo para uma comunidade ainda em formação.

O crescimento da população tornava cada vez mais urgente a presença permanente da Igreja Católica na localidade. Até então, muitos moradores dependiam da assistência religiosa prestada pela Capelania da Base Aérea de Natal ou da visita ocasional de sacerdotes vindos de outras cidades.

Sensível às necessidades espirituais dos fiéis, Dom Marcolino Dantas aproveitou um encontro com o então ministro da Aeronáutica, brigadeiro Trompowsky, durante uma solenidade do Torneio Aéreo da 2ª Zona, realizada em Natal, para solicitar apoio à construção de uma capela em Parnamirim.

O bispo destacou a importância de oferecer assistência religiosa contínua aos numerosos católicos da vila, especialmente diante do acelerado crescimento populacional e da necessidade de fortalecimento da vida espiritual da comunidade. Segundo registros da época, Dom Marcolino argumentava que a população não podia permanecer dependente apenas da capelania militar, sendo indispensável a existência de uma igreja onde os moradores pudessem participar das missas dominicais, dias santos e demais atos religiosos.

Diante das justificativas apresentadas pelo bispo, o ministro comprometeu-se a colaborar para que Parnamirim tivesse sua própria capela, prevendo-se que, futuramente, ela se transformaria em igreja matriz com a criação oficial da paróquia — algo que efetivamente ocorreria poucos anos depois, acompanhando a marcha progressista da então histórica vila.

Décadas mais tarde, aquela antiga aspiração coletiva consolidar-se-ia como uma das maiores referências religiosas da Grande Natal: a Paróquia de Nossa Senhora de Fátima, símbolo da fé, da memória e da identidade espiritual do povo parnamirinense.

POR QUE NÃO CONHECEMOS AS PRATAS DA CASA?

  Nos últimos dias, fiquei surpreso ao ver diversas postagens nas redes sociais e em jornais digitais potiguares informando que o prefeito d...