Cantor, compositor, poeta e cordelista, Ismael Dumangue é um dos nomes mais autênticos da música autoral potiguar. Natural de São José de Mipibu, mas radicado em Parnamirim desde 1983, cidade onde consolidou grande parte de sua trajetória artística e cultural, o artista construiu uma obra marcada pela poesia, pela valorização das raízes nordestinas e pela recusa em transformar sua arte em produto descartável. Ao longo de mais de quatro décadas vivendo na “Terra de Manoel Machado”, Ismael tornou-se também uma referência cultural parnamirinense, mantendo viva uma produção musical profundamente ligada à memória, à sensibilidade poética e à identidade nordestina. Em conversa ao BLOG TRAMPOLIM PARA A VITÓRIA, Ismael fala sobre infância, memória, religiosidade, literatura de cordel, influências musicais e o compromisso de produzir uma obra que permaneça viva no tempo.
BLOG TRAMPOLIM PARA A VITÓRIA: Ismael, sua trajetória artística nasce muito ligada à memória e às origens. Que lembranças da infância em São José de Mipibu ainda permanecem mais fortes em você?
ISMAEL DUMANGUE: Permanecem muitas coisas. A rua, os engenhos, as brincadeiras de infância, as radiolas, os parques, o som das músicas chegando pelas janelas das casas… Tudo isso ficou muito vivo dentro de mim. Eu costumo dizer que minha música nasce justamente desse universo de lembranças. A infância no interior deixa marcas profundas. O rádio teve uma importância enorme na minha formação. Eu ouvia de tudo: hinos religiosos, música sertaneja, Roberto Carlos, canções românticas. Aquilo foi formando minha sensibilidade sem que eu percebesse.
BLOG TRAMPOLIM PARA A VITÓRIA: Sua história de vida também é marcada pela descoberta da adoção. De alguma forma, isso influenciou sua arte?
ISMAEL DUMANGUE: Influenciou muito. Quando a gente descobre certas coisas sobre a própria origem, passa a olhar para a vida de outra maneira. Acho que isso aprofundou em mim uma necessidade maior de pertencimento, de entender as raízes, de compreender os afetos. Minha música fala muito sobre memória, identidade, reencontro, saudade… Talvez venha justamente daí. A arte, muitas vezes, acaba sendo uma maneira de organizar emoções.
BLOG TRAMPOLIM PARA A VITÓRIA: Você costuma citar influências muito diversas, que vão desde os hinos da igreja até Belchior e Alceu Valença. Como essas referências convivem dentro da sua música?
ISMAEL DUMANGUE: Convivem naturalmente. A música que escutei na infância nunca saiu de mim. Os hinos da igreja têm uma dramaticidade muito forte, uma intensidade emocional muito grande. Depois vieram Belchior, Fagner, Alceu Valença, que me mostraram uma música mais poética, mais elaborada. Mas tudo isso foi se somando. Nunca tive preocupação em seguir uma linha fechada. Minha música é resultado das experiências que vivi e das sonoridades que me tocaram ao longo da vida.
BLOG TRAMPOLIM PARA A VITÓRIA: Em suas composições existe uma preocupação muito forte com a palavra. Isso vem da convivência com o cordel e a poesia popular?
ISMAEL DUMANGUE: Sem dúvida. Quando comecei a estudar mais profundamente a literatura de cordel e as estruturas dos repentistas, passei a compreender melhor o peso da métrica, da rima, do ritmo interno dos versos. O cordel ensina disciplina poética. Ensina que a palavra precisa soar bem, carregar musicalidade. Tenho muito cuidado com isso. Gosto de lapidar a letra, procurar a frase certa, encontrar o encaixe exato entre palavra e melodia.
BLOG TRAMPOLIM PARA A VITÓRIA: Há quem diga que suas músicas possuem um sentimento muito telúrico, muito ligado à terra e às raízes nordestinas. Você concorda?
ISMAEL DUMANGUE: Concordo. Acho que não conseguiria fugir disso, porque faz parte de quem sou. Os engenhos, as ruas de Mipibu, as igrejas, as paisagens humanas do interior… tudo isso habita minha memória afetiva. Mesmo quando a música fala de sentimentos universais, existe sempre esse chão nordestino sustentando a composição. É algo natural.
BLOG TRAMPOLIM PARA A VITÓRIA: Você é frequentemente apontado como um artista que nunca cede aos modismos. Em tempos de músicas produzidas rapidamente para consumo imediato, como você enxerga isso?
ISMAEL DUMANGUE: Eu respeito todos os estilos e todas as formas de fazer música, mas nunca consegui criar pensando em tendência ou mercado. Minha preocupação sempre foi fazer algo verdadeiro. Acho que a arte precisa ter permanência. Não gosto da ideia de música descartável. Gosto de compor algo que continue fazendo sentido daqui a muitos anos. Talvez isso torne o caminho mais difícil, mas também mais honesto comigo mesmo.
BLOG TRAMPOLIM PARA A VITÓRIA: Sua música parece buscar mais do que entretenimento. Existe uma intenção consciente de provocar reflexão?
ISMAEL DUMANGUE: Sim. A música pode emocionar, provocar lembranças, despertar reflexões. Não penso na canção apenas como distração. Gosto quando uma letra toca alguém profundamente, quando desperta memória ou sentimento. Acho que a arte tem essa capacidade de permanecer dentro das pessoas.
BLOG TRAMPOLIM PARA A VITÓRIA: O álbum Terra de Engenhos é considerado por muitos uma homenagem afetiva à sua cidade natal. Qual o significado desse trabalho para você?
ISMAEL DUMANGUE: É um trabalho muito especial porque reúne exatamente esse universo afetivo que me acompanha desde menino. Falar de São José de Mipibu é falar das minhas origens, das pessoas que fizeram parte da minha história, das paisagens que me formaram emocionalmente. Foi uma maneira de transformar memória em música.
BLOG TRAMPOLIM PARA A VITÓRIA: E como você vê a cena musical potiguar atualmente?
ISMAEL DUMANGUE: Vejo muitos artistas talentosos produzindo coisas interessantes. O Rio Grande do Norte sempre teve uma riqueza cultural enorme. O problema, muitas vezes, é a falta de espaço e incentivo. Mas existe uma geração muito boa surgindo, fazendo música autoral, valorizando identidade cultural. Isso é importante.
BLOG TRAMPOLIM PARA A VITÓRIA: Além da carreira artística, você também participa de projetos culturais e educacionais. Qual a importância desse trabalho?
ISMAEL DUMANGUE: Acho fundamental. A cultura precisa circular, alcançar os jovens, formar novos ouvintes e novos artistas. Quando participo de festivais estudantis ou projetos culturais, sinto que estou contribuindo para manter viva essa corrente da música e da poesia. A arte transforma pessoas.
BLOG TRAMPOLIM PARA A VITÓRIA: Depois de tantos anos de trajetória, o que ainda move Ismael Dumangue?
ISMAEL DUMANGUE: A emoção de criar. Enquanto eu tiver algo para dizer através da música, continuo compondo. A arte ainda me emociona profundamente. E talvez seja justamente isso que mantém tudo vivo: a capacidade de transformar experiências humanas em canção.
BLOG TRAMPOLIM PARA A VITÓRIA: Para encerrar: como você gostaria que sua obra fosse lembrada no futuro?
ISMAEL DUMANGUE: Gostaria que fosse lembrada como uma obra sincera. Uma música feita com verdade, respeito à poesia e amor pela cultura nordestina. Se minhas canções conseguirem permanecer na memória afetiva das pessoas, já me sinto realizado.

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