NEWTON NAVARRO VISITA A ESCOLA ESTADUAL DR. ANTONIO DE SOUZA...

Há experiências que a gente não apenas presencia, mas que nos atravessam. Hoje, na Escola Dr. Antônio de Souza, o nosso inesquecível Polycarpo Feitosa, vivi uma dessas experiências ao contemplar a exposição “De Ponta a Ponta, de Ponte a Ponte - Newton Navarro”. Saí de lá profundamente emocionado. A começar pelo homenageado, Newton Navarro, artista múltiplo, original, inquieto, um dos grandes nomes da cultura potiguar, cuja obra atravessa a pintura, o desenho, a literatura e tantas outras formas de expressão. Seus traços, suas cores, seus personagens, suas paisagens e suas palavras pertencem à memória do Rio Grande do Norte. Por isso, encontrar uma escola apresentando Navarro às novas gerações de maneira tão criativa e cuidadosa foi, para mim, uma experiência de lavar a alma.

Todo o acervo fotográfico aqui postado é de autoria da professora Ana Catarina.

O que mais me encantou, porém, foi perceber que os alunos não foram convidados simplesmente a conhecer ou reproduzir as obras do artista. Eles pesquisaram, estudaram, interpretaram e, sobretudo, retextualizaram lindamente a produção de Newton Navarro, recriando-a a partir de suas próprias perspectivas. Os alunos e monitores da Biblioteca Polycarpo Feitosa, mediados e orientados pela regente da biblioteca, Goreti Santos, demonstraram que haviam realmente se apropriado do conhecimento. Fiquei particularmente encantado com a maneira como apresentaram o resultado de seus estudos: seguros, preparados, entusiasmados e donos daquilo que diziam. Não eram estudantes apenas repetindo informações recebidas, mas jovens que haviam transformado conhecimento em expressão própria. Há uma enorme diferença entre copiar e recriar, e foi justamente nessa passagem que enxerguei a força pedagógica do projeto.

E houve ainda uma experiência deliciosa: Newton Navarro estava presente. Presente por meio de suas obras, de seus textos, de seus personagens e das retextualizações realizadas pelos estudantes, mas também encarnado, de certo modo, por um surumbático aluno, quase à maneira de Fernando Pessoa. Navarro parecia ter retornado à escola para conversar com aquela nova geração e, para completar a brincadeira, até concedeu uma entrevista. A cena, além de encantadora, carrega profundo significado: a Arte é capaz de vencer o tempo. O artista já não está fisicamente entre nós, mas sua obra continua dialogando com os jovens, provocando perguntas, despertando interpretações e criando novas possibilidades de leitura.

A exposição reúne uma tríade muito significativa: as obras recriadas pelos alunos e monitores da Biblioteca Polycarpo Feitosa, sob a orientação de Goreti Santos de Medeiros; as peças confeccionadas pela professora de Arte Maria Goreti dos Santos de Medeiros, retratando a trajetória de algumas obras de Navarro; e a exposição “Os frutos do amor amadurecem ao sol”, da artista plástica Angela Almeida, cedida pela EDUFRN/UFRN e mediada por Ana Catarina Silva Fernandes. A escola transforma-se, assim, em espaço de encontro entre Arte, memória, pesquisa, criação e educação. E é justamente aí que vejo a grandeza da iniciativa: o estudante deixa de ser simples espectador e passa a participar da construção do conhecimento.

Experiências dessa natureza são instrumentos preciosos para conduzir os alunos a caminhos que despertam a criatividade e a criticidade. Pesquisar um artista, compreender sua linguagem, interpretar suas obras, recriá-las e depois apresentar publicamente aquilo que foi aprendido significa desenvolver muito mais que uma habilidade artística. Significa aprender a olhar, pensar, questionar, escolher e criar. É uma educação que não se limita à transmissão de informações, mas desperta no aluno o desejo de compreender e produzir. E há, nesse trabalho, uma dimensão que considero ainda mais importante: a valorização da história e da cultura do Rio Grande do Norte. Conhecer Newton Navarro é conhecer parte de nós mesmos, é mostrar aos jovens que aqui também nasceram e viveram artistas e intelectuais de grandeza, cuja produção merece ser estudada, preservada e celebrada.

Vivemos um tempo em que muitas vezes enaltecemos referências culturais que vêm de fora e, sem perceber, deixamos em segundo plano aquilo que é nosso. Não se trata, evidentemente, de rejeitar outras culturas. Conhecer o mundo é indispensável e o diálogo entre culturas nos enriquece. Mas uma coisa é abrir-se ao mundo; outra é esquecer as próprias raízes. Precisamos oferecer aos nossos jovens uma janela para o universal, sem lhes tirar a capacidade de reconhecer a paisagem cultural que existe diante deles. Preservar nossa memória não significa encerrá-la em vitrines, mas fazê-la circular, reinterpretá-la e permitir que as novas gerações estabeleçam com ela uma relação viva. Foi isso que vi acontecer na Escola Dr. Antônio de Souza.

Saí dali profundamente emocionado, não apenas pela beleza da exposição, mas pelo que ela representa. Vi professores atuando como mediadores do conhecimento, uma biblioteca transformando-se em espaço de criação, alunos tornando-se intérpretes e um artista potiguar atravessando o tempo para conversar novamente com os jovens. Vi a Educação encontrando a Arte, a memória encontrando a criatividade e a história do nosso estado encontrando uma nova geração. Quisera todas as escolas fossem palco de experiências assim, capazes de ensinar aos estudantes não apenas conteúdos, mas também a olhar, imaginar, questionar e reconhecer o valor daquilo que lhes pertence culturalmente. Muito obrigado aos educadores, aos artistas e, sobretudo, aos alunos por essa experiência. Voltei para casa com uma certeza: quando há educadores que acreditam, há caminhos; e quando esses caminhos passam pela Arte, pela cultura e pela nossa própria história, eles podem transformar a escola e aqueles que nela aprendem. PARABÉNS A TODA A LINDA ESCOLA DR. ANTONIO DE SOUZA, O POLICARPO FEITOSA..






















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