PARNAMIRIM: ENTRE ENGENHOS E QUILOMBOS: MEMÓRIAS DA ESCRAVIDÃO E DA RESISTÊNCIA NEGRA NAS TERRAS DE MANOEL MACHADO...


No mês de maio, quando o Brasil relembra a assinatura da Lei Áurea, em 13 de maio de 1888, torna-se indispensável revisitar a memória das antigas terras que hoje formam o município de Parnamirim. Muito antes de sua emancipação política, esse território esteve ligado às jurisdições históricas de São José de Mipibu, Nísia Floresta e, posteriormente, Natal. Entre rios, várzeas e tabuleiros férteis, floresceram antigos engenhos de açúcar que testemunharam simultaneamente a riqueza da aristocracia rural e o sofrimento dos negros escravizados. Ainda restam resquícios de alguns deles e até mesmo ruínas.

Nas terras que hoje pertencem a Parnamirim existiram importantes unidades produtoras ligadas ao ciclo açucareiro potiguar. Entre elas destacavam-se os engenhos Cajupiranga, Pium, Pitimbu e Japecanga, propriedades que, durante décadas, sustentaram a economia regional através da monocultura da cana-de-açúcar. Inclusive há uma antiga chaminé do engenho Cajupiranga que foi preservada como marco histórico dentro da área urbanizada de Cajupiranga, servindo como um dos últimos vestígios materiais do ciclo açucareiro naquela regiãoNessas terras ecoaram os sons das moendas, dos carros de boi e, sobretudo, o labor forçado de homens e mulheres africanos e afrodescendentes submetidos ao regime escravista.

Os antigos engenhos mantinham estreitas relações econômicas e sociais com os núcleos históricos de Papary - atual Nísia Floresta - e de São José de Mipibu, regiões emolduradas por diversos engenhos e por uma terra muito rica. Por essas estradas coloniais transitavam mercadorias, senhores de engenho, mascates, viajantes e também escravizados conduzidos para o trabalho diário nos canaviais. O açúcar produzido nessas propriedades alimentava não apenas a economia provincial, mas também a própria estrutura do sistema escravista no Rio Grande do Norte.

Todavia, a história dessas terras não se resume ao domínio senhorial. Ela também é marcada pela resistência negra. Um dos exemplos mais significativos encontra-se na comunidade quilombola de Moita Verde, localizada em Parnamirim. A formação da comunidade remonta ao ano de 1850, quando antigos moradores do Quilombo Capoeiras, em Macaíba, instalaram-se na região de Moita Verde.

A presença desses quilombolas constitui um dos capítulos mais importantes da resistência afrodescendente na Grande Natal. Vindos de Capoeiras - comunidade reconhecida pela forte ancestralidade negra - os moradores de Moita Verde construíram um território de preservação cultural, solidariedade comunitária e permanência histórica. Ainda hoje, o Quilombo Moita Verde mantém viva a memória de seus antepassados, preservando tradições culturais, religiosas e familiares transmitidas através das gerações. O reconhecimento oficial da comunidade como remanescente quilombola pela Fundação Cultural Palmares reafirma a importância histórica daquele território.

Ao rememorar o mês da abolição, é preciso compreender que a liberdade jurídica conquistada em 1888 não significou igualdade social imediata. Muitos negros libertos permaneceram sem terras, sem acesso à educação e submetidos à pobreza estrutural herdada da escravidão. Ainda assim, resistiram. Formaram comunidades, preservaram suas raízes africanas e contribuíram decisivamente para a formação cultural e humana do Rio Grande do Norte.

Falar da abolição nas terras de Parnamirim é recordar não apenas os antigos engenhos e as famílias senhoriais, mas sobretudo os homens e mulheres negros que construíram aquela região com suor, sofrimento e resistência. Maio deve ser, acima de tudo, um tempo de memória histórica, reconhecimento e reverência aos ancestrais africanos que ajudaram a erguer as bases sociais e culturais das terras potiguares.

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