BREVE PASSEIO NA HISTÓRIA DA PARÓQUIA DE NOSSA SENHORA DE FÁTIMA DE PARNAMIRIM/RN...



No próximo dia 13 de maio, Parnamirim volta a viver um dos momentos mais significativos de sua história religiosa e cultural: as festividades de Nossa Senhora de Fátima, padroeira do município e símbolo da fé de milhares de devotos que, geração após geração, mantêm viva uma tradição profundamente ligada à formação espiritual da cidade.

A devoção a Nossa Senhora de Fátima nasceu em Portugal, no ano de 1917, quando ocorreram as célebres aparições marianas na localidade de Cova da Iria, presenciadas pelos pastorinhos Lúcia, Francisco e Jacinta. Em poucas décadas, a devoção espalhou-se pelo mundo católico, chegando também ao Brasil e encontrando forte acolhimento em terras potiguares, especialmente em Parnamirim, cidade que crescia impulsionada pela movimentação da Base Aérea e pela expansão urbana ocorrida ao longo do século XX.

A imagem da Virgem de Fátima na visão dos Pastorinhos - O Catequista

Naquele período, Parnamirim ainda era um núcleo em formação, ligado inicialmente ao município de Nísia Floresta, São José de Mipibu e posteriormente povoado de Natal. As primeiras manifestações católicas organizadas no território que viria a se tornar o município, originalmente vinham por intermédio de engenhos vizinhos, que tinham capelas, a exemplo da Taborda, justamente na baixada, hoje divisa do município. A profusão do catolicismo ocorreu nas décadas de 1930 e 1940, período em que a região passou a receber intenso fluxo populacional em razão da implantação do campo de aviação e, posteriormente, da Base Aérea durante a Segunda Guerra Mundial.

Primeiro templo católico de Parnamirim (permanece com outra função, anexo à atual Matriz)

O crescimento populacional provocado pela presença militar e pela importância estratégica do antigo Campo de Parnamirim, sobretudo durante a Segunda Guerra Mundial, fez surgir a necessidade de uma organização religiosa mais estruturada para atender os moradores da região.


A criação da Paróquia de Nossa Senhora de Fátima ocorreu oficialmente em 1º de abril de 1952, durante o episcopado de Dom Marcolino Dantas, então arcebispo de Natal. A instalação da nova paróquia representou um marco histórico para o município, que consolidava não apenas seu crescimento urbano, mas também sua identidade religiosa.

Monsenhor João Correia de Aquino (in memorian)

O primeiro vigário da recém-criada paróquia foi o padre João Correia de Aquino, considerado o primeiro padre de Parnamirim. Sua atuação tornou-se fundamental na organização da vida católica local, especialmente em um período em que a cidade ainda possuía infraestrutura modesta e poucas instituições estruturadas. Padre João Correia de Aquino exerceu importante papel pastoral junto às famílias, trabalhadores e militares que habitavam a região, fortalecendo a fé católica e incentivando a formação das primeiras comunidades religiosas organizadas do município.

Inicialmente, as celebrações religiosas aconteciam em espaços simples e improvisados, acompanhando o desenvolvimento gradual da cidade. Com o passar dos anos, a necessidade de um templo maior levou à consolidação da Igreja Matriz de Nossa Senhora de Fátima, construída na região central de Parnamirim e transformada em um dos principais símbolos religiosos do município.

A igreja tornou-se ponto de convergência da fé popular, especialmente durante as festividades do mês de maio, quando as ruas da cidade passam a receber procissões, novenas, caminhadas penitenciais e manifestações religiosas que reúnem milhares de pessoas. As comemorações da padroeira passaram a integrar não apenas o calendário religioso, mas também a própria memória afetiva da população parnamirinense.

Ao longo das décadas, diversos sacerdotes deram continuidade ao trabalho iniciado pelo padre João Correia de Aquino. Entre eles destacaram-se párocos que contribuíram para a expansão das comunidades, criação de pastorais sociais, movimentos religiosos e construção de capelas em vários bairros da cidade. A paróquia acompanhou o crescimento urbano de Parnamirim e viu surgir novas comunidades católicas em áreas que antes eram praticamente despovoadas.

Padre Murilo Paiva

Entre os sacerdotes que marcaram profundamente a história recente da paróquia está o padre Antônio Murilo de Paiva, conhecido carinhosamente pelos fiéis como padre Murilo. Além de sua destacada atuação pastoral, padre Murilo também tornou-se reconhecido por sua produção literária e intelectual, sendo autor de livros e textos religiosos voltados à espiritualidade, à reflexão cristã e à evangelização. Durante aproximadamente 28 anos à frente da Paróquia de Nossa Senhora de Fátima, tornou-se uma das figuras religiosas mais queridas e respeitadas de Parnamirim, participando intensamente da vida social, espiritual e cultural da cidade.

No ano de 2025, a Arquidiocese de Natal anunciou uma nova etapa na história da paróquia com a nomeação do padre Paulo Henrique da Silva como novo pároco da Igreja Matriz de Nossa Senhora de Fátima. A nomeação foi oficializada pelo arcebispo metropolitano de Natal, Dom João Santos Cardoso, em março de 2025, sendo recebida com grande expectativa pela comunidade católica parnamirinense.

Posse do Padre Paulo Henrique da Silva

Padre Paulo Henrique da Silva assumiu oficialmente a paróquia sucedendo padre Murilo, dando continuidade ao importante trabalho religioso desenvolvido ao longo de décadas. Sua posse marcou um momento histórico para os fiéis, especialmente por representar a renovação pastoral de uma das mais tradicionais paróquias da Arquidiocese de Natal. Conhecido por sua dedicação sacerdotal, proximidade com as comunidades e atuação evangelizadora, padre Paulo Henrique passou a conduzir os trabalhos pastorais, litúrgicos e sociais da igreja em um período de fortalecimento das atividades religiosas no município.

Durante os anos 1960 e 1970, a festa de Nossa Senhora de Fátima consolidou-se definitivamente como uma das maiores manifestações religiosas do município. As procissões passaram a reunir multidões, enquanto famílias inteiras decoravam ruas e fachadas de casas em homenagem à padroeira. Era comum a realização de quermesses, leilões, apresentações culturais e encontros comunitários ligados às festividades religiosas.

A própria imagem de Nossa Senhora de Fátima tornou-se elemento profundamente presente no cotidiano da cidade. Em muitos lares, repartições públicas e estabelecimentos comerciais, a imagem da santa passou a ocupar lugar de destaque, simbolizando proteção, esperança e fé. Ao longo do tempo, tornou-se tradição a peregrinação da imagem pelas comunidades e instituições locais durante o mês mariano.

A ligação entre Nossa Senhora de Fátima e Parnamirim ultrapassa o aspecto estritamente religioso. A padroeira acompanha simbolicamente o desenvolvimento histórico do município, desde os tempos da antiga vila ligada à aviação militar até a consolidação de Parnamirim como uma das mais importantes cidades do Rio Grande do Norte.

Vila Militar da Aeronáutica, cujas construções tiveram início em 1942 (Hoje estão todas descaracterizadas por falta de um simples olhar).

Atualmente, a Paróquia de Nossa Senhora de Fátima permanece como uma das mais tradicionais da Arquidiocese de Natal, desenvolvendo intenso trabalho pastoral, social e evangelizador. Além das celebrações litúrgicas, a igreja mantém ações voltadas para assistência social, catequese, juventude e apoio às famílias em situação de vulnerabilidade.

À medida que o 13 de maio se aproxima, Parnamirim mais uma vez renova sua devoção àquela que há mais de sete décadas é considerada mãe espiritual do município. Entre sinos, velas, cânticos e procissões, a cidade revive sua história e reafirma a fé em Nossa Senhora de Fátima, cuja presença permanece profundamente entrelaçada à memória, à cultura e à identidade do povo parnamirinense.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

PEIXOTO, Carlos. A História de Parnamirim. Natal: Z Comunicação, 2003. 222 p.

ARQUIDIOCESE DE NATAL. Dom Marcolino Dantas e seu longo pastoreio. Natal, 2024.

CASCUDO, Luís da Câmara. História da Cidade do Natal. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira/UFRN/INL-MEC, 1980.

CASCUDO, Luís da Câmara. História do Rio Grande do Norte. Rio de Janeiro: MEC, 1955.

MARIZ, Marlene da Silva; SUASSUNA, Luiz Eduardo Brandão. História do Rio Grande do Norte. Natal: Sebo Vermelho, 2005.

MEDEIROS, José Geraldo Rodrigues de. Parnamirim: A Cidade que Mais Cresce no RN – Estudos Sociais do Município de Parnamirim (RN). Natal, 1999.

MEDEIROS, Tarcísio. Aspectos Geopolíticos e Antropológicos da História do Rio Grande do Norte. Natal: Imprensa Universitária, 1973.

OLIVEIRA, Francisco Isaac D. de. “Desbravando o planalto: de uma pista para aviões nasce Parnamirim”. Revista Galo, ano 1, n. 1, 2020.

ARAÚJO, Glaucia Dias Costa de. Debaixo da sombra do Trampolim da Vitória: história local, ensino e memória histórica em Parnamirim-RN. Dissertação de Mestrado. Universidade Federal do Rio Grande do Norte, 2020.

GUIMARÃES, Karla. Parnamirim: a história local como ferramenta didática para o ensino fundamental II. Universidade de Pernambuco, 2022.

SILVA, Alda Nunes Freire da. Parnamirim: História de uma Cidade. Monografia apresentada à Universidade Potiguar, 2006.

PINTO, Lenine. Natal, USA. Natal: RN Econômico, 1995.

SMITH JR., Clyde. Trampolim para a Vitória. Natal: UFRN, 1993.



 DOM CARDOSO: UM APARTE...

Sempre entendi que devemos valorizar o artista local em todas as áreas. Contudo, em um país no qual, infelizmente, a arte é tratada como luxo e até mesmo como algo supérfluo - salvas as exceções - não é estranho que o próprio povo desconheça algumas de suas pratas da casa. Sabendo disso, urge que todos nós, os que escrevemos, os que educamos, os que promovemos cultura, encontremos alternativas inteligentes para dar visibilidade aos nossos músicos, artistas plásticos, teatrólogos, bailarinos, enfim, a todos os que dedicam a vida à arte, principalmente ao público infantil e adolescente, que desconhece quase por completo a arte norte-rio-grandense.

Um caminho possível é a escola de educação infantil e de ensino fundamental, bem como as escolas de música regionais, sejam da UFRN, sejam particulares, municipais ou estaduais. Se cada professor trabalhar os nomes dos artistas locais, eles se tornarão conhecidos. Basta selecionar três obras de cada um e torná-las presentes no universo dos alunos: utilizá-las no pátio, na gincana, na sala de aula, em um festival musical, em uma galeria, no palco da escola, no auditório da cidade, enfim, onde for possível.

O gosto nasce do conhecimento. Se o aluno aprende que existe determinado artista e conhece, por exemplo, três de suas partituras ou músicas, três de suas peças teatrais ou três de suas pinturas, o interesse será despertado e o cenário começará a mudar. O passo seguinte é convidar esses artistas para uma apresentação na escola, ocasião em que eles ficarão felizes ao ver os alunos interagindo com sua arte. E essa interação acontecerá porque houve aproximação: aprenderam a gostar do artista, e sua arte lhes tornou-se familiar. Essa é a única receita para tornar o artistas respeitado, pois ser respeitado, é ser reconhecido.


QUANDO DIMINUIR A MULHER IRANIANA É PROJETO JORNALÍSTICO...


Há décadas jornalistas do mundo inteiro – inclusive do Brasil – denigrem o Irã, e no bojo dessa difamação, expõem a mulher iraniana de maneira totalmente equivocada. As mídias as mostram como silenciadas, oprimidas e confinadas a papéis rigidamente definidos. Essa narrativa é tão difundida que acaba adquirindo aparência de verdade incontestável. No entanto, quando pegamos a realidade do Irã e confrontamos com a difamação mostrada, por exemplo, nas na TV Globo, na Record e mídia afora - salvas raras exceções -, nos convencemos de que há uma intenção clara de depreciar esse país incrível. Isso é fruto do lobby de Israel e EUA. Particularmente acredito que há jornalistas quem nem sabem disso e jornalistas que sabem e alimentam ainda mais o equívoco.

Os Estados Unidos da América são os grandes especialistas em denegrir todos os países onde há riquezas de seu interesse e encontra dificuldade de acesso, portanto é comum transformar os presidentes desses países em demônios, dessa forma manipula a opinião pública, instigando ódio ao Irã, assim como à Palestina e a outros países. Ao longo do século XX e início do XXI, os Estados Unidos estiveram envolvidos, de forma direta ou indireta, em diversos episódios de intervenção política e militar ao redor do mundo, como nos casos do Chile, com a queda de Salvador Allende em 1973, do Congo, com o assassinato de Patrice Lumumba em 1961, e do Irã, onde Mohammad Mossadegh foi deposto em 1953; além disso, houve tentativas reiteradas de eliminar Fidel Castro em Cuba durante a Guerra Fria, enquanto, em contextos de guerra ou intervenção militar, líderes como Muammar Gaddafi na Líbia, Saddam Hussein no Iraque e Osama bin Laden no Afeganistão acabaram mortos em decorrência direta ou indireta dessas ações; somam-se ainda episódios como o golpe no Vietnã do Sul que resultou na morte de Ngo Dinh Diem e a captura de Manuel Noriega no Panamá, e segue com o mesmo modus operandi.

O Irã é uma das mais antigas civilizações contínuas do planeta, com mais de cinco mil anos de história, berço de uma tradição intelectual que produziu nomes fundamentais para a filosofia, a matemática, a medicina, a literatura, a arquitetura etc. Reduzir esse patrimônio a estereótipos contemporâneos pautados de preconceitos - para atender interesses dos Estados Unidos da América - denegrindo por denegrir, repetindo difamações como papagaio - é não apenas um erro jornalístico, mas um gesto de picuinha, de jornalista que não evoluiu. É um empobrecimento deliberado do debate.

Com relação à mulher, no campo da educação, por exemplo, os números surpreendem, mas, curiosamente, são silenciados por grande parte dos jornalistas. Nas últimas décadas, o Irã assistiu a uma verdadeira transformação no acesso feminino ao ensino superior. Mulheres passaram a representar mais da metade dos estudantes universitários em diversas fases recentes, com forte presença em cursos de engenharia, ciências exatas e medicina. No irã, num breve exemplo, há mulheres que atuam em áreas avançadas da engenharia e da indústria de defesa, o que inclui participação em projetos ligados à tecnologia de mísseis, foguetes. Não se trata apenas de acesso, mas de permanência e produção. Em contraste, países considerados mais “liberais”, como o Brasil, ainda enfrentam desigualdades significativas na distribuição de mulheres em áreas como física, tecnologia e engenharia pesada, onde a presença feminina continua aquém do desejável. Mas isso os jornalistas - principalmente da Globo - não mostram.

O Irã possui um número expressivo de professoras universitárias, pesquisadoras e cientistas atuando em centros de excelência. Mulheres iranianas participam de projetos de alta complexidade, inclusive em setores estratégicos como a engenharia nuclear, a nanotecnologia e o desenvolvimento industrial. EM TERMOS PROPORCIONAIS, O PAÍS FIGURA ENTRE AQUELES COM MAIOR PRESENÇA FEMININA NAS ÁREAS DE CIÊNCIA, TECNOLOGIA, ENGENHARIA E MATEMÁTICA NO ORIENTE MÉDIO, SUPERANDO INCLUSIVE ALGUMAS NAÇÕES EUROPEIAS EM DETERMINADOS INDICADORES ESPECÍFICOS. Isso a “Grobo” também não mostra!

Outro dado que desafia a ausência de divulgação das mídias diz respeito à formação de profissionais altamente qualificadas. O número de médicas no Irã cresceu de forma consistente nas últimas décadas, sendo hoje uma presença comum e consolidada no sistema de saúde. O mesmo ocorre com engenheiras, cientistas e pesquisadoras, que ocupam espaços relevantes em universidades e centros de pesquisa. Em contraste, mesmo em países ocidentais, ainda se debate a dificuldade de inserção feminina em determinadas áreas técnicas, o que revela que o problema da desigualdade de gênero não é monopólio de uma única cultura ou sistema político. Vem a calhar a misoginia que vimos - inclusive no Brasil - quando Bolsonaro subestimou inúmeras cientistas brasileiras durante a epidemia do Corona vírus. E esse indivíduo fez escola. Há muitas reproduções dele na política brasileira.

No campo político, mulheres ocupam cadeiras no legislativo, participam de conselhos municipais e exercem funções administrativas e técnicas no aparelho estatal. Em comparação, o Brasil ainda enfrenta desafios históricos de sub-representação feminina na política, com índices que permanecem abaixo de diversas democracias consolidadas.

Ignorar a realidade no Irã é um desserviço para o jornalismo real. A cobertura midiática internacional frequentemente opta por destacar apenas um dos lados, produzindo uma narrativa que atende mais a interesses geopolíticos do que ao compromisso com a verdade. O irã é um país complexo, mas como todo país, possui sua cultura, sua forma de administração, suas religiões etc. É um país de múltiplas qualidades. A inteligência humana, as belezas arquitetônicas e naturais extasiantes, seu potencial educacional, enfim, um país que muitos não querem divulgar por acreditar na mentira espalhada pelos EUA e por Israel.

Muitos jornalistas, conscientes ou inconscientemente, acabam por reproduzir uma visão que enfatiza o atraso, a opressão e o conflito, relegando ao silêncio os dados que apontam para educação, qualificação e protagonismo. Tal prática, longe de esclarecer, obscurece. É preciso recordar que o Irã é também uma nação de intelectuais. Sua tradição filosófica, herdada da antiga Pérsia e renovada ao longo dos séculos, continua viva nas universidades, nos círculos acadêmicos e na produção cultural contemporânea. A mulher iraniana está inserida nesse universo: ela lê, pesquisa, escreve, ensina e participa da construção do pensamento de seu tempo. Negar essa dimensão é negar-lhe humanidade plena.

O mundo contemporâneo exige análises menos passionais e mais responsáveis. Nem demonização, nem idealização. O Irã deve ser compreendido em sua totalidade: como uma sociedade complexa, marcada por tensões, mas também por conquistas inegáveis. E dentro dessa sociedade, a mulher iraniana é também agente de transformações.

Talvez o maior desafio esteja em abandonar a comodidade dos estereótipos. Porque, enquanto a narrativa simplificada persiste, perde-se de vista aquilo que realmente importa: a capacidade de um povo - homens e mulheres - de construir, ao longo do tempo, caminhos próprios, nem sempre coincidentes com as expectativas externas, mas nem por isso menos legítimos. E é justamente nesse ponto que se impõe um gesto de honestidade intelectual: reconhecer que, por trás do véu, real ou simbólico, existe não o silêncio, mas uma multiplicidade de vozes que insistem, com firmeza, em serem ouvidas, e ao longo do tempo conquistaram inúmeros espaços, assim como no Brasil.

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL NA LITERATURA... CAMÕES E MACHADO CHORAM...

Dom Quixote é difícil? Como ler sem se perder (ou desistir)

Imagine você abrindo Grande Sertão: Veredas e viajando em suas páginas, tropeçando em seus neologismos, encantando-se com sua linguagem poética de João Guimarães Rosa... Imagine você desabotoando os olhos e percorrendo as letras saídas de A Hora da Estrela, A Paixão segundo G.H., Laços de Família, de Clarice Lispector... Imagine-se lendo Coração Disparado, de Adélia Prado; aliás, ouvi-la, pois lê-la é tão mágico quanto ouvi-la, e ouvi-la é lê-la como quem flutua. Imagine a capacidade cirúrgica de Edgar Allan Poe de nos botar medo e envolver-nos num suspense, a ponto de suas palavras serem as próprias pulsações... Imagine os cenários desprezados, invisíveis, sob folhas secas e podres, que, sob os grafites de Manoel de Barros, se transformam em fina poética... sua palavra inventada, sua prosa poética acometida de invencionática... Imagine a palavra que, de tão deliciosa, sai das páginas de Tatiana Belinky como um delicioso medovik... Imagine o quanto Crime e Castigo se torna um castigo, de tanto nos prender, nos segurar: “Não me solte!”...

Agora imagine você lendo um autor ou autora que chorou lágrimas de sangue para produzir um clássico que que viverá eternamente grudado na humanidade, que seus hexanetos o estarão lendo... que o futuro infinito o estará lendo...

Manoel de Barros declarou que “escrever sangra”. Ele quis dizer que é delicioso escrever, mas sangra, pois é trabalho minucioso, pesado, medido, pincelado, aparado, rasgado, jogado no lixo, recuperado, editado, e, nesse mister, o cérebro sua, cansa, e o medo de ser condenado, incompreendido e crucificado orbita... Isso é sangrar, pois também é sofrível... Um sofrível que nos possui como possessão,, pois não conseguimos livramento.

Escrever leva tempo, conhecimento, pesquisa, formação, leitura, estudo, desafios, noites de sono, entraves... A obra para, estaciona, fica esquecida, é retomada, é relida, é aparada, mexida, remexida e publicada. Um livro saído do cérebro de um escritor é um filho que até mesmo o pai sentiu a gestação, pois o viu nascer, engatinhar, andar e ser convidado a estar sob os olhos das crianças e dos adultos. É o filho que ouviu nossos puxões de orelha e sentiu a nossa palavra de aprovação.

Todo livro carrega histórias de bastidores inimagináveis. O computador que pifou. O texto que sumiu. O reencontro, a reescrita. As anotações dos insights madrugadores. A visita ao local de inspiração. O carro que quebrou. A xícara de café que virou sobre as anotações. O copo de água gelada que caiu nos teclados... O dinheiro que faltou na hora de pagar a xerox (pois livro tem que ser lido e corrigido a grafite, no papel)...

A escrita verdadeira, assim como a pintura verdadeira, como a música verdadeira, precisa ser reconhecida pelo leitor: “isso é de fulano”... “isso é de siclano”. Igual ver uma tela de van Gogh, Doryan Gray...  É como RG.

Escrever é feito de todas as sensações. Uma simples poesia, uma prosa poética, pode ter uma história de meses ou até anos, pois é inconcebível a obra que não perpassou pelas veias, pelo coração, pelos neurônios... é inconcebível a escrita que não veio dos dedentros humanos... que não foi julgada pela nossa coragem, pelo nosso medo, que não perpassou por nossa sentença... que não foi lida por um amigo íntimo antes de perpassar pelas bobinas das máquinas...

Eu acredito no homem, na palavra que não brotou em segundos, gerada por condicionamento maquinal, oriunda dos submundos da inverdade e da frieza, mas que foi gerada como uma jaca, embu, graviola, melancia, macaxeira... a palavra que foi gerada como filho, que perpassou por dor, suor, lágrimas, alegria, êxtase, paz, felicidade plena...  A palavra que tem impressão digital...

QUANDO A FAMÍLIA FALHA, É NO JARDIM DA INFÂNCIA QUE O MENINO COMEÇA A RESPEITAR A IMAGEM FEMININA...

 


NO DIA INTERNACIONAL DA MULHER É PRECISO PENSAR...
Hoje li sobre dois feminicídios que aconteceram no Mato Grosso do Sul, estado do meu nascimento, ironicamente no Dia Internacional da Mulher. Confesso que, por mais constrangedor que pareça, às vezes penso que a Lei Maria da Penha e todas as formas institucionais vistas nos últimos anos, abordando reflexões sobre o respeito necessário à mulher - inclusive a data de hoje - não tem sido tão eficientes, pois todos os dias vemos nas redes sociais diversas formas de violência contra a mulher, inclusive feminicídios quase que diariamente. Esse horror parece normalizado.
As estatísticas oficiais e os levantamentos de organizações da sociedade civil apontam que o feminicídio permanece como uma chaga no Brasil, uma violência que não cessa e que se concentra nas periferias, nas casas e nas ruas por onde circulam nossas filhas, irmãs, mães, amigas. No Rio Grande do Norte, e em especial em Natal, esses números e relatos ecoam com violência própria: famílias destroçadas, vizinhanças assombradas, uma sensação coletiva de vulnerabilidade que não podemos naturalizar. É urgente lembrar que cada número é um corpo, uma história interrompida.
Escrevi, em 2024, um espetáculo intitulado NISIA FLORESTA BRASILEIRAS AUGUSTAS; seu enredo tentou dialogar com essa ferida, revisitar Nísia Floresta, sua coragem e sua voz desde 1832, para perguntar ao presente por que a igualdade ainda tarda. Nísia ensinou que questionar a ordem era já uma forma de amor. Bertha Lutz, décadas depois, empilhou argumentos científicos e políticos que ajudaram a abrir lacunas nas estruturas; hoje encontramos teóricas e ativistas contemporâneas, como Rita Segato, que analisa a raiz da violência patriarcal; Flávia Biroli, que pensa gênero e democracia; e outras intelectuais que oferecem ferramentas para compreender e agir, apontando não apenas culpados, mas sistemas que reproduzem a violência.
Há algo muito errado nessa história e precisamos saber o que é para consertar. Na minha santa ignorância, observo que as leis e, consequentemente, as punições são eficientes. A própria Lei Maria da Penha é exemplo até para outros países, mas ela precisa andar de braços dados com algo que parece estar esquecido. Me refiro à educação, ou melhor, às escolas. É necessário um projeto pedagógico que aborde o necessário respeito às meninas a partir do jardim da infância. Os meninos precisam ser provocados a entender que todos merecem respeito, tanto eles (por parte das meninas) quanto as meninas (por parte deles). Esse assunto precisa urgentemente estar dentro de todas as salas de aula.
A sociedade, e por consequência, as crianças, tem recebido os resquícios de uma educação patriarcal do século XX, pautada pela ideia equivocada de que a mulher é um ser inferior, e isso, por si, instiga o menino que, desde pequeno, já massacra a menina. E assim massacrará a mulher adulta. A menina cresce com medo dos meninos, sendo orientada pela mãe, a tomar cuidado com os meninos, como se menino fosse sinônimo de ser um ser depravado, violento, perigoso. E as mães não estão erradas de todo, pois infelizmente, é grande a parcela de casos, cujos homens agridem, violentam e matam.
Eu e meus irmãos, por exemplo, éramos orientados pelo meu pai a não nos demorarmos na cozinha, pois era lugar de mulher. Ora! Justo a cozinha, um lugar tão aconchegante, cheiroso, cheio de sabores, cheiros, calor humano e conversas demoradas. Pois bem, meu pai não gostava que ficássemos ali, mas, aos poucos, tornando-nos adolescentes, fomos quebrando a regra, ajudando nossa mãe a fazer pão, doces, licores, enfim, lavando louça, lavando a cozinha etc. E assim, naturalmente, fomos desconstruindo esse machismo desnecessário do nosso pai. E, obviamente, que ele fingia que não via, afinal não havia nada de errado em estar na cozinha ajudando a mãe. Creio que o que ajudou também essa desconstrução foram as guloseimas que ele se deliciava depois . Meu pai não era violento com nossa mãe. Apenas não gostava de homem na cozinha. Ele nasceu em 1924 (há 102 anos), portanto herdou uma educação do século XIX. Imagine a educação!
O que estranho é estarmos em pleno século XXI e vermos pessoas com a mente parada nos séculos passados, praticando violência psicológica, física e até feminicídio. Isso não é normal e precisa ser combatido. A mesma eficiência da Lei Maria da Penha precisa estar presente nas escolas, nos anos iniciais. O assunto deve ser abordado sem medo, pois é na infância que a criança está construindo o seu alicerce. E alicerce firme e bem feito é alicerce em que a criança é civilizada. Um homem civilizado respeita a mulher.
O menino deve aprender a respeitar a amiguinha, a irmã, a mãe, a tia, a avó, a vizinha e, depois, adolescente, respeitar a namorada e a esposa. Um menino educado a ser civilizado com as meninas se tornará um marido que respeitará a mulher como esposa, como profissional, como namorada e tudo mais. O homem civilizado terá consciência de que a namorada ou a esposa não lhe pertence e que ele deve respeitar seus gostos pessoais e sua decisão, inclusive o rompimento de um namoro ou casamento, assim como a mulher deve agir da mesma forma com relação ao homem. Um problema comum, ultimamente, é justamente o contrário disso, cujo homem mata a mulher porque ela decidiu por fim ao relacionamento amoroso. Isso é de uma estupidez sem tamanho.
Vejo também um fato curioso que ora ocorre. Refiro-me ao próprio presidente da república levando esse assunto para onde vai, abordando-o seja numa feira agropecuária, na entrega de casas, numa reunião com empresários etc. Uma espécie de bandeira. Isso não é ruim, mas assinala que a atual realidade da mulher preocupa. Isso, além de significar preocupação, sinaliza que o país inteiro está sendo forçado a olhar para um problema que cresce. Mas, admitamos, o discurso público não substitui políticas públicas educativas profundas, tampouco a construção de políticas contra violência contra as meninas a partir dos anos iniciais, portanto, dentro das escolas. Precisamos que o Estado e a sociedade invistam em formação docente, em materiais pedagógicos, em projetos transversais que trabalhem empatia, respeito e responsabilização desde os primeiros anos.
Por fim, lembro que a luta por direitos não é apenas legal, é cultural. Celebrar Nísia Floresta e lembrar Bertha Lutz é também chamar à ação: a escola, a família, os museus, os teatros, o próprio ato de contar histórias como fiz no espetáculo, devem ser arenas onde se planta outra forma de conviver. Não podemos aceitar que o horror se naturalize. Exigir leis e punir é necessário; semear respeito e humanidade desde a infância é imprescindível. E a escola é o panteão maior da civilidade, portanto o elejamos como local de ensinar o amor entre meninos e meninas e vice versa. Só assim construiremos uma sociedade onde a vida das mulheres não seja risco cotidiano, e onde Natal, o Rio Grande do Norte e todo o Brasil deixem de contabilizar tragédias para começar a contar histórias de igualdade e cuidado.
Elaborei um projeto - nesses moldes - e o enviarei para a Câmara Municipal de Natal, para a Câmara Fedral e Senado. É certo que é na família que recebemos a educação de berço, onde aprendemos a ser pessoas civilizadas, mas em existindo a Lei Maria da Penha, que pune exemplarmente cidadãos que não foram bem educados na infância, e que absorveram a ideia errônea sobre amulher, não seria incorreto que os jardins de infância andassem de mãos dadas com Maria da Penha.

QUANDO A FAMÍLIA FALHA, É NO JARDIM DA INFÂNCIA QUE O MENINO COMEÇA A RESPEITAR A IMAGEM FEMININA.

ROSTOS DA HISTÓRIA: TRABALHADORES DA BASE AÉREA NA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL...

 

Na fotografia que inspira este texto estão alguns brasileiros que trabalharam na Base Aérea de Natal durante a Segunda Guerra Mundial. Da esquerda para a direita: Sra. Olinda, Zacarias Souza, Geraldo Nascimento, Washington Ferreira, José Epifânio (Jota Epifânio), Nair Góes, Rodolfo Lima, Cunha e Rui Marinho. Rostos que representam uma geração de trabalhadores parnamirinenses e natalenses que, em meio a um conflito de dimensões globais, ajudaram a sustentar um dos mais importantes pontos estratégicos do Atlântico Sul.

Na década de 1940, com a instalação da base norte-americana em Parnamirim, então distrito de Natal, a região tornou-se elo fundamental na chamada “rota da vitória”, que ligava as Américas à África e à Europa. A posição geográfica privilegiada do Rio Grande do Norte transformou Natal em centro logístico internacional. Milhares de aeronaves passaram por Parnamirim Field, consolidando a cidade como ponto estratégico decisivo para os Aliados.

Entretanto, por trás das pistas e dos hangares estavam trabalhadores brasileiros - vindos predominantemente do interior do Rio Grande do Norte e do vizinho estado da Paraíbas -, que garantiam o funcionamento da Base. Eram homens e mulheres em funções administrativas, operacionais e de apoio, cuja dedicação silenciosa ajudou não apenas no esforço de guerra, mas também no desenvolvimento urbano, econômico e social da região. O impacto foi profundo: infraestrutura, empregos e circulação de pessoas aceleraram o crescimento do antigo distrito, contribuindo diretamente para o surgimento e fortalecimento do município de Parnamirim.

Jota Epifânio

Entre os nomes retratados, destaca-se José Epifânio, conhecido como Jota Epifânio, vindo de Nova Cruz, nascido no dia 23 de setembro de 1927. Após sua atuação na Base Aérea de Natal, construiu trajetória marcante como colunista social em Natal. Até meados dos anos 1970, esteve lotado no Comando da Base - CATRE, como Relações Públicas, função estratégica na comunicação institucional. Paralelamente, tornou-se um dos nomes conhecidos da crônica social potiguar, assinando coluna no jornal Tribuna do Norte, onde registrava eventos, personagens e acontecimentos da vida social natalense.

Sua escrita ajudou a documentar uma época, preservando memórias da sociedade local em transformação. Jota Epifânio não foi apenas testemunha do crescimento de Natal e Parnamirim, ele também foi narrador desse processo, deixando registros que hoje servem como fonte para pesquisadores e interessados na história cultural do Rio Grande do Norte. Jota Epifânio faleceu no dia 31 de dezembro de 1999, aos 72 anos.

Até o momento, o maior volume de informações levantadas refere-se justamente a Jota Epifânio, razão pela qual sua trajetória recebe maior destaque neste texto. Sobre os demais fotografados, ainda estamos reunindo dados que permitam reconstruir com mais precisão suas histórias pessoais e profissionais. Cada nova informação representa um passo importante para completar este registro histórico.

Esta publicação tem também um propósito claro: estou buscando identificar e confirmar dados sobre as pessoas retratadas, para que o álbum histórico fique completo. Resgatar nomes, funções e trajetórias é uma forma de reconhecimento. É devolver visibilidade àqueles que contribuíram, com trabalho e dedicação, para um momento decisivo da história regional e mundial.

Ao contemplarmos esta imagem, vemos mais do que funcionários de uma base militar em tempos de guerra. Vemos cidadãos comuns que participaram de um capítulo extraordinário. Trabalhadores que ajudaram a moldar o destino de Parnamirim e que, mesmo sem saber, inscreveram seus nomes no livro da História.L.C.F. Sócio Efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte - IHGRN.


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