.POR QUE QUASE NINGUÉM CONHECE AS PRATAS DA CASA?


Sempre entendi que devemos valorizar os artistas locais: músicos, atores, pintores e dançarinos, e da mesma forma os escritores e os mestres e brincantes das mais diversas expressões da cultura popular. Porém, num país que, infelizmente, a arte é tratada como luxo e até mesmo com supérflua - salvas as exceções - não é estranho que o próprio povo desconheça muitas pratas da casa.

Em 2017, escrevi o espetáculo “Câmara Cascudo e o Tapete Mágico”, apresentado no Cine-Teatro Municipal Vereador Paulo Barbosa da Silva, e tive a triste oportunidade de constatar que os alunos que frequentam as oficinas de arte nesse espaço não tinham a mínima ideia sobre quem foi Cascudo, um dos mais importantes intelectuais do Brasil, pesquisador do folclore, etnógrafo, historiador, antropólogo, jornalista e professor, com uma obra vasta e profundamente dedicada ao estudo da cultura popular brasileira; sua produção abrange temas como tradições orais, costumes, mitos, lendas, alimentação, religiosidade popular, música, danças, festas e o cotidiano das populações, especialmente do Nordeste, autor de inúmeros livros que o consolidaram como um dos maiores estudiosos da identidade cultural brasileira.

Se isso acontece com Luís da Câmara Cascudo, imagine com os cantores locais, sem oportunidades, sem holofotes, sem reconhecimento. E isso se aplica aos profissionais das mais diversas expressões artísticas. Toda vez que vejo uma pessoa lendo em público - o que é raro, pois quase todas estão olhando os celulares -, tento ler a capa, e quando não consigo, uma força incontrolável me cutuca a perguntar “que livro é esse?”. Isso é hábito meu e o faço com frequência. Normalmente começo a conversar, citando autores de Parnamirim e Natal, mas, confesso a triste constatação: quase todos desconhecem as pratas da casa. A maioria conhece J. K. Howling, J.R.R.Tolkien, George R.R. Martin, Dan Brown, Susanne Collins, Stephenie Meier, Colleen Hoover, Holly Black, John Green, Teilor Jenkins Reid... Também encontro leitores dos brasileiros Clarice Lispector, Thalita Rebouças, Pedro Bandeira, Raphael Montes, Carolina Maria de Jesus... Costumo anotar os nomes, quando não desconheço, e pesquiso depois.

Sabendo dessa realidade, urge a todos nós, que escrevemos, que educamos, que promovemos cultura de alguma forma, que temos acesso aos meios de comunicação, encontrarmos alternativas inteligentes para dar visibilidade aos nossos músicos, artistas plásticos, teatrólogos, bailarinos, escritores, enfim, a todos os que dedicam a vida à arte, mas que, infelizmente, são conhecidos por meia dúzia de pessoas. Precisamos de alternativas para trabalhar principalmente com o público infantil e adolescente, que desconhece quase por completo a prata da casa norte-rio-grandense. E, como estou escrevendo nesse blog que criei para jorrar as coisas de Parnamirim, faz-se necessário jogar os holofotes aos parnamirinenses que pertencem ao referido universo e são desconhecidos pelas crianças e jovens.

O melhor caminho é a escola de educação infantil e de ensino fundamental, bem como as escolas de música regionais, sejam da UFRN, sejam particulares, municipais ou estaduais. Se cada professor trabalhar os nomes dos artistas e scritores locais, eles se tornarão conhecidos. Basta selecionar três a cinco obras de cada um e torná-las presentes no universo dos alunos: utilizá-las na sala de aula, no pátio, na gincana, no festival musical, numa galeria, no palco da escola, no auditório da cidade, numa exposição, numa quadrilha junina, na trilha sonora dos espetáculos musicais e teatrais, enfim, onde for possível. O aluno precisa ter contato com a música dos artistas locais,  com os livros dos escritores que moram na sua cidade, assim como a tela do pintor, a dramaturgia do ator, enfim, as instituições que trabalham com cultura e educação devem colocar na mesa da criança e do jovem, um prato cheio de músicas, de livros, de pinturas, de dramaturgias, tornando esse alimento precioso da alma uma coisa palatável, deliciosa de se apreciar.

O gosto nasce do conhecimento. Se o aluno aprende que existe determinado artista e conhece, por exemplo, três a cinco de suas partituras ou músicas, três a cinco de suas peças teatrais ou três a cinco de suas pinturas, três a cinco de seus livros, o interesse será despertado e o cenário começará a mudar porque ele, por si, sentirá curiosidade de conhecer mais e mais o artista que, de repente, é o vizinho que ele nem conhece, é o morador desconhecido do seu condomínio....

O passo seguinte é convidar esses artistas para uma apresentação na escola, ocasião em que eles ficarão felizes ao ver os alunos interagindo com sua arte. Imagine, por exemplo, a felicidade de Ismael Dumangue ser convidado para apreciar um evento escolar e ser recebido pelos estudantes, em coro, cantando loucamente suas músicas? Imagine convidar a escritora Angélica Vitalino com a desculpa de ela explanar sobre a Biblioteca Elienai Cartaxo e, surpreendentemente, recebê-la com sua obra espalhada pela sala de aula em forma de citações, trechos legais, curiosidades? Imagine a professora Terezinha Martins ser convidada para um evento e encontrar no local suas obras de arte espalhadas nas paredes, as capas de seus livros transformadas em banners, e, de quebra, os anfitruões cantando o Hino de Parnamirim criado por ela... Imagine!

Tenham certeza absoluta que não há prata da casa que resistirá ao anonimato ou ao público de meia dúzia de gatos pingados se todas as instituições afins tiverem tal iniciativa. E é tudo muito simples: a interação acontecerá porque houve aproximação entre o público e a obra. Os alunos aprenderam a gostar do artista, e sua arte lhes tornou-se familiar. Essa é a única receita para tornar os artistas respeitados, pois ser respeitado, é ser reconhecido e ser conhecido na rua. E com toda certeza, se isso for construído nos alicerces, ou seja, na infância e na adolescência, haverá, sim, o pertencimento por excelência. A criança de hoje é o adulto de amanhã. Desse modo, teremos uma sociedade que, verdadeiramente, tem cultura.

As Câmaras Municipais, a Câmara de Dirigentes Logistas, o SENAC, o SESI, os IFRN’s. a IFRN, a FJA pode, dentro de um grande projeto, dar visibilidade aos artistas da terra, às pratas da casa, seja montando uma galeria fixa em locais pertinentes, seja patrocinando os artistas e escritores locais, realizando festivais, patrocinando turnês, shows públicos etc. Quando as escolas  e instituições culturais despertam nas crianças e jovens o conhecimento sobre as pratas da casa, esse público se sentirá chamado - e convidado por excelência - a prestigiar shows, espetáculos, musicais, lançamentos de livros, exposições e tudo mais...

Fica a dica!

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